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Nesta imagem são visíveis as tangerineiras em miniatura (até metro e meio de altura), apelidadas de kumquat (em cantonense)… qualquer coisa com “golden tangerine”. Embora algo amargos há quem faça marmelada deste pequenos frutos. Nos anos que vivi em Macau era habitual ter uma em casa apenas para efeitos decorativos – dá sorte – e para respeitar a tradição da mais importante festividade chinesa que dura cerca de 30 dias.
O nome científico da árvore e do fruto é Fortunella japonica. O Kumquat é um pequeno fruto oval, de 2 a 5 cm de diâmetro, que quando está maduro é laranja-amarelado. É um fruto comestível. Também apelidado de Kinkan, assemelha-se a uma pequena laranja, pouco maior que um ovo de codorniz. De sabor adocicado e ácido, pode-se comer com a casca. Também é utilizado em produtos cosméticos e de beleza.
Década 1970. Largo do Senado frente aos Correios. Foto IICT
(…) Naquele ano, nos princípios da década de setenta, talvez porque já tivessem passado todos os medos que sofrêramos com a revolução cultural, era um ano de alegria. O bairro do Bazar fervilhava de entusiasmo na expectativa de tudo de bom que o novo ano traria … durante a semana anterior as mobílias das casas térreas que havia – ainda eram muitas – tinham saído para a rua para serem lavadas com água e sabão e depois engraxadas com pomada de sapatos e readquirirem a dignidade que só as mobílias de pau preto conseguem ter quando a idade se alia à limpeza e ao brilho do tempo.
Os galhos ou até mesmo as pequenas árvores de pessegueiro em botão circulavam pelas ruas embrulhadas em papéis cor de rosa, de forma já previamente calculada para que não abrissem antes nem depois daquela noite tão ansiosamente esperada.
Um frenesim de gentes invadia as ruas. Cuidavam de fazer as últimas compras. Durante, pelo menos, uma semana as lojas iam ficar fechadas – e cada qual como podia transportava mobílias novas, vasos com flores, roupas vermelhas para adultos e crianças, roupas de cama e sacos com os mais variados achares. Eram os cocos, as abóboras, as tangerinas em miniatura ou cortadas em pedaços, os frutos de lótus, deliciosos bocados de gengibre no vinho e fresco, era tudo o que podia ser passado por açucar em ponto e conservado, eram ainda as sementes brancas e vermelhas das abóboras, bem torradinhas para serem facilmente descascadas com os dentes da frente…
Nas ruas viam-se peças de mobília, almofadas, lençóis, ‘mintóis’, … tudo o que ligeiramente exibisse um ar de cansado era mudado e atirado para a rua onde pacientemente esperava por uma camioneta que, antes da noite do novo ano, sempre passaria para levar.
Quem passou pelo Largo do Senado naquele cair de tarde, de certeza ainda hoje o conserva na lembrança como imagem da alegria e da cor. Homens que acompanhavam crianças recheando bonitos ‘mináps’ vermelhos, muito saltitantes, muito barulhentas, conversavam com os amigos em encontros fortuitos ou previamente combinados. As avós, sempre muito respeitadas, levavam severamente mas com responsabilidade as suas tarefas de guardião, enquanto falavam com as suas amigas. Por aí, como num pequeno écran, desfilavam todas as tristezas do ano que estava a acabar, de quando em quando interrompiam as lamentações para chamar a atenção das tropelias dos netos, e voltavam às suas conversas. Tinham que despejar tudo o que havia de desagradável pois o novo ano estava a chegar e não se podia falar mais em tristezas.
As mães estavam nos cabeleireiros, que nesta época fervilhavam de gente, esperando a sua vez de ser atendidas e, logo que estavam despachadas, davam um salto a casa e enfiavam uma bela cabaia vermelha já preparada em cima da cama para finalmente acompanharem a família neste fim de tarde e de ano.
À volta do largo, historicamente preparado com compridíssimos degraus feitos com tábuas de madeira e forrados de papel vermelho, esperavam por nós lindos vasos de flores cultivados de ano para ano, com saber cientificamente milenar para esta ocasião festiva: eram as tangerinas anãs, carregadas de frutos muito amarelos mesmo a atrair todo o ouro que ainda existia no ar; igualmente atraindo o vil metal, estavam os carnudos crisântemos e os modestos cravos de burro que nunca, em nenhuma parte do mundo se sentiam tão prestigiados; os junquilhos, dedicadamente armados em rodelas concêntricas e sobrepostas, altivamente mostravam a sua delicadeza e a sua arte, e assim justificavam o seu alto preço. Eram estas as flores mais características do Ano Novo Chinês, como característica era também a competição assumida pelas duas potências China – Japão aqui representada. Como prova dessa eterna contenda, num canto mais reservado, as carnudas peónias exibiam despudoradamente toda a sua frágil mas provocante beleza como que a justificar o título que lhe tinha sido atribuído (a flor da China), enquanto que os crisântemos (a flor do Japão) mostravam a sua pujança, pela enorme variedade de cores fortes e caules duros, mas eram igualmente muito belos. Mais discretas, as orquídeas de todos os formatos estavam começando a enriquecer esta parafernália florida. Agora muitas outras flores ocidentais se têm vindo a juntar a esta explosão de beleza. Tudo fica mais belo mas fica também menos característico.
Parecia que todas as magias do mundo tinham combinado juntar-se em Macau: era aqui e era agora que esse encontro iria realizar-se, a modernidade convivia com a tradição, o vulgar com o exótico, a tristeza acabaria por se esconder, dando lugar a uma exuberante alegria que extravasava em enormes gargalhadas; eram os gritos de prazer pelo ouvir do rebentar de panchões cada vez mais frequente, eram risadas alegres e barulhentas para atrair a atenção dos amigos que passavam.”

Excerto de “O livro da Ana Maria”, de Margarida Ribeiro , Editora da Bisavó – Fund. do Santo Nome de Deus, 2007

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