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Eu não conhecia Luís Marrucho. Macau juntou-nos, ainda que várias décadas depois. Ele viveu lá nos anos 40 e eu nos 80. Foi o seu neto que me contou a sua história em 2009, salvo erro. Falámos ao telefone, trocámos impressões e, passado pouco tempo o Sr. Marrucho (já vai a caminho dos 90 anos) e eu parecíamos amigos de longa data. Prometi-lhe que logo que pudesse, faria questão de o ir visitar a S. Gregório (Melgaço), a sua terra natal e, como ele costuma dizer, “aqui é que começa Portugal”. De facto, é a fronteira mais a Norte.
Assim, em Abril de 2001 cumpri a ‘promessa’. Percorri mais de 500 quilómetros e foi com grande satisfação que conheci pessoalmente o Sr. Marrucho. Falámos mais de seis horas consecutivas…
Foi militar entre 1947 e 1951. Já quase no final do serviço militar obrigatório , em 1949, foi mobilizado para Macau como ‘cabo’. A 3 de Junho estava em Penafiel quando recebeu as “guias de marcha” para a a anti-aérea de Queluz
Conta muitas histórias do seu tempo de Macau. Como se tivessem acontecido ainda ontem. “Um dia houve uma formatura geral por causa de um problema com um militar. O capitão (João Teixeira Bragança, casado com uma macaense) ficou muito irritado por ter havido um roubo a um comerciante chinês. Certo é que enquanto os produtos roubados não apareceram toda a companhia ficou de castigo.”
Nunca regressou a Macau. Num próximo post vou publicar a entrevista que lhe fiz via carta e e-mail em finais de 2009 e publicada no Jornal Tribuna de Macau em Abril de 2010. Publico ainda fotografias tiradas por L. Marrucho e tornadas públicas pela primeira vez.
É a minha homenagem por ser quem foi e por ser quem é. Obrigado por partilhar as suas memórias de Macau, Luís.
Nesta fotografia, mais uma tirada pela tal máquina fotográfica comprada pelos três camaradas de armas, um jipe norte-americano, memória da Guerra do Pacífico terminada anos antes. Este era propriedade de um rent-a-car. Era prática habitual os militares portugueses passearem nele aos fins-de-semana e dias de folga.
Para aguçar a curiosidade para a entrevista aqui ficam algumas ‘notas soltas’ da conversa que tivemos em Abril último.
– a partida foi do cais de Santa Apolónia com a presença do ministro da Guerra, Santos Costa, onde embarcaram no Niassa a 15 de Julho de 1949;
– uma enorme multidão no cais de embarque despediu-se dos mais de mil militares que seguiram a bordo;
– dezenas de pessoas tentaram arremessar presentes para bordo, volumes de cigarros e outros produtos, e muitos caíram ao Tejo;
– ao fim de 4 dias de viagem um dos padres que seguia a bordo morreu e depois das cerimónias fúnebres foi lançado ao mar;
– em Port-Said o Niassa ficou bastante afastado do cais por transportar material de guerra;
– neste porto fizeram o reabastecimento (na imagem) de carvão, água e alimentos e os militares puderam ir a terra;
– a passagem pelo canal do Suez foi feita num ‘comboio’ de navios;
– em Haden foram mais uma vez a terra e com dinheiro providenciado pelo exército podiam comprar alguns presentes;
– nesta cidade encontraram um português que perdera os documentos e a ligação de um barco e deambulava pela cidade;
– em Colombo viram e sentiram uma tempestade de areia com o convés do Niassa a encher-se de areia…
– nesta cidade Marrucho recorda os bonitos jardins onde estava um escudo e a imagem de Vasco da Gama;
– Ultrapassada Singapura, o tempo piorou e o Niassa teve de ultrapassar ‘redemoinhos de água’;
– a bordo “café com leite e pão muito branquinho ao pequeno almoço, ao almoço carne de camelo e à tarde chá e bolachas”;
– à chegada a Macau, a 24 de Agosto de 1949, a primeira refeição foi frango assado, arroz e vinho no quartel de Mong Há;
– foram acolhidos pela companhia das Beiras;
– Marrucho recorda, por exemplo, que num dos exercícios com as tropas expedicionárias era preciso formar a frase “nós não somos demais para defender Portugal”, mas nem sempre a frase saía correcta…
Marrucho, 1º da direita, com camaradas de armas na estrada da penha
– perto da Melco havia uma nascente onde iam buscar água para o cantil;
– no Verão de 1949, por causa da situação de guerra civil na China, receberam um aviso para se apresentarem nos seus postos e ficarem em “estado de prontidão”;
– em 1950 L. Marrucho foi nomeado professor de 1ª classe das Escolas Regimentais (para militares);
– em 1951 regressou a Portugal, e com ele o “Macau”, um cão que tinha ido de Portugal com a sua companhia;
– um dos últimos ordenados (pré) rondava as 110 patacas (cerca de 600 escudos);
– nos dias de folga passeavam pela cidade, iam às ilhas…
– Marrucho fez parte de um grupo de militares portugueses escolhidos para fazer uma visita ao aeroporto de Kai Tak (Hong Kong) a convite do exército britânico que os presentearam com uma pequena viagem pelos céus da região;
– a companhia de que Marrucho fez parte fez as honras (e ele também) militares na inauguração da gruta de N. Sra. de Fátima;
– filho de um antigo guarda fiscal, Marrucho podia ter seguido a carreira militar, mas seguiu as pisadas do pai, e foi guarda fiscal desde 1952 até se reformar;
– Luis Marrucho nasceu em 1927 e nunca regressou a Macau… 
– Quem tiver conhecimento de camaradas de armas da comissão militar em Macau pode entrar em contacto com o macauantigo@gmail.com
– Eu sei que ele ia gostar!
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