Junho 2011


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No próximo dia 3 de Julho no auditório Casa-Memória de Camões, em Constância, decorre o colóquio “Camões pelo Mundo”.
11h00 -«Sinais de Camões em Constância» – Ana Maria Dias
15h30 -«De Constância à Índia –Astronomia de Os Lusíadas» – Máximo Ferreira
16h30 -«Camões na China – Macau» – Eduardo Ribeiro
Eduardo Ribeiro, jurista há muito radicado em Macau, tem-se dedicado ao estudo da presença do autor de “Os Lusíadas” no território e do qual tenho dado conta aqui no blog.
O colóquio integra ainda as intervenções de Ana Maria Dias, presidente da Casa-Memória e de Máximo Ferreira, presidente da Câmara local.
NA: tema controverso, a presença ou não de Camões em Macau (terá chegado cerca de 1556), tem levado  Eduardo Ribeiro a investigar o tema. Já publicou “Camões em Macau – uma certeza histórica” mas as pesquisas prosseguem, segundo o próprio, pelo que em breve deverá haver novidades.Como é domingo, é uma boa sugestão de passeio e cultura pela “vila poema”, perto de Chamusca, distrito de Santarém.
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A vida e obra de Sun Yat Sen, fundador da República na China, foram evocados em Lisboa, num colóquio organizado pelo Instituto Internacional de Macau (IIM), realizado a 22 de Junho 2011, no Palácio da Independência, sede da Sociedade Histórica da Independência de portugal, onde funciona a delegação do IIM.
Foram oradores os Professores António Vasconcelos Saldanha, catedrático do Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas da Universidade Técnica de Lisboa, e Ming K. Chan, da Universidade de Stanford.
O tema do colóquio foi “Sun Yat Sen – a fundação da República na China e Macau” e as comunicações subordinaram-se aos títulos “Macau visto pelas duas Repúblicas” e ” The Luso-Macau connections in Sun Yat Sen´s modern Chinese revolution”, dando lugar a um animado debate, no final do qual foram sugeridas novas pistas para trabalhos de investigação sobre este tema, especialmente no que respeita ao papel de Macau na formação e afirmação política daquela grande figura da China moderna.
Texto e imagens do IIM

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A propósito de http://macauantigo.blogspot.com/2011/06/adivinhas-populares-maquistas.html – ‘Adivinhas Populares Maquistas” – recebi de um leitor a seguinte nota que a seguir transcrevo. Diz Carlos Lemos que a adivinha nº 3 não tem a solução correcta de acordo com o que a avó lhe contou. No primeiro post a versão apresentada era esta:

Eu cô vôs,
Vôs cô eu,
Bulí, bulí
Chuchú na mêo.
Sã cuza? Sã: tranca
Segundo Carlos, a resposta correcta é ‘ linha e a agulha’ e não tranca. Assim, portanto:
Iou (agulha) co vos (linha);
vos (linha) co iou (agulha);
buli buli ( a linha que vai mexer)
e chuchu na meo (a linha e enfiada no buraquinho da agulha).
«Ora para quem não sabe, a adivinha pode ter outro significado (assim um pouco ‘sujo’) como o nosso Padre Mendes (do Seminário S. Jose de Macau) pensou. Quanto à historia das ‘rotadas’ (spanked by ratan stick) é o seguinte :
Escrevi num papelinho esta adivinha acima mencionada que a minha avó me ensinou quando eu tinha 8 anos. No dia seguinte levei esse papelinho para a escola (Seminario de S. José – Macau) e durante o recreio mostrei o papelinho a um colega (Manuel Basilio). Nesse momento aparece o Sr. Padre Mendes que tirou o papelinho da mão do Basilio. Depois de ter lido o que estava escrito, ele perguntou-me o que era. Respondi que era uma adivinha. O padre Mendes volta-se para mim e diz: “Vais adivinhar quantas rotadas é que vocês vão apanhar?” Depois de um curto silêncio, o Basilio respondeu: “Duas”. Apanhámos 5 rotadas cada um.»
Carlos (Naio) de Lemos
NA: Obrigado Carlos pelo seu contributo.
O colégio de S. José em 1962

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Na Breve Memória Documentada acêrca da Soberania de Portugal na Ilha Verde, do Governo da Província de Macau, (Imprensa Nacional, de 1922, Macau) consta o seguinte:
“A porção de terra que outrora constituiu a chamada ainda hoje, aliás impropriamente, Ilha Verde, está situada em frente da extremidade sul e do lado ocidental do istmo da Península de Macau, confrontando pelo norte com a extinta fortaleza de Passaleão, pelo sul com as montanhas da Lapa, por leste com o rio do Porto Interior e por oeste com a montanha de Pac-san”. Esta descrição foi feita na Conservatória do Registo Predial da Comarca de Macau, em 19 de Maio de 1886. “Dessa mesma descrição consta ainda que a dita ilha mede mil metros  de circunferência, mais ou menos, sendo calculado o seu valor venal
em dez mil patacas.” “A sua área aproximada em 1884, época em que foi calculada, era de 92:970 m². Atualmente (1922), porém, a sua área é de 141:867 m² sendo as suas confrontações, com mais rigor, as  seguintes: Ao norte, com o canal existente no rio do Porto Interior e que fica situado entre a antiga Ilha Verde e uns terrenos para norte que, na baixa-mar, ficam a descoberto; ao sul, com a bacia do Patane; a oeste, com a parte norte do Porto Interior; a leste, finalmente, está ligada há muito à parte setentrional da Península de Macau, quase no ponto de formação do istmo, por uma estrada construída sobre o antigo dique criado pelos aterros em grande escala formados, naturalmente, pela acessão de aluviões fluviais, utilizados mais tarde por trabalhos de arte.
É hoje (1922) portanto, e já há bastante tempo, um terreno completamente integrado e incorporado no território da península, constituindo com esta um todo indiviso e sem a mínima solução de continuidade. Esta incorporação, note-se bem, data de uma época anterior à celebração do Tratado de Amizade e Comércio entre Portugal e a China, de 1 de Dezembro de 1887.”
O dique da Ilha Verde começa entre as avenidas do Almirante Lacerda e de Artur Tamagnin Barbosa em frente à Estrada do Arco e termina na Estrada Marginal da Ilha Verde, à porta do Aquartelamento da Ilha Verde. Parte desta Avenida era outrora conhecida pela designação de Estrada do Dique da Ilha Verde. Dá-se o nome de Istmo da Ilha Verde à área situada a Leste da Ilha Verde, entre o Canal dos Patos e a Bacia Norte do Patane; trata-se de terreno quase todo conquistado ao mar e nele se acha o Bairro da Ilha Verde. Em chinês esta área chama-se Chéng Chau (Qing Zhou em mandarim), a mesma designação que tem a Ilha Verde propriamente dita. Atualmente situada na freguesia de Nossa Senhora de Fátima, deixou
de pertencer à de Sto. António como indica o padre Manuel Teixeira.
 Duas fotografias do início do século XX da autoria de Mam Took. Espólio IICT
No que já foi uma ilha, e agora se situa no extremo Noroeste da península de Macau, há uma pequena colina com 57 metros denominada ainda hoje como Ilha Verde. Este tufo verde, que se mistura com um fundo de prédios, chama a atenção para quem se encontra na zona do Porto Interior. Antes da chegada dos portugueses a Macau esta pequena ilha era agreste e feita de um aglomerado de rochas. Sendo refúgio de chineses era conhecida como a ilha dos Diabos. Sir Andrew-Ljunstedt, um sueco que passou por Macau e que deixou An historical Sketch of the portuguese Settlements in China ou Esboço histórico dos Estabelecimentos Portugueses na China (editado em Boston, 1836) escreve acerca da Ilha Verde: “Era um rochedo com montões de pedras, num deserto tristonho, onde se reuniam vagabundos, ladrões e desertores. O terreno podia ser beneficiado e convertido num estado florescente, só com a perseverança de homens, que se prestassem de boa vontade e sem cessar a tratar do seu melhoramento, e ao mesmo tempo fossem bastante opulentos para prover os meios necessários. Os jesuítas encarregaram-se desta tarefa. Eles possuíam em Macau um Seminário e um colégio para os fins de propagar a religião na China e no Japão. Neste célebre centro de ciência, crescia constantemente o número de professores e de estudantes e os meios de alojá-los comodamente escasseavam.”

 Mapa de 1912 destcando-se à esquerda a ilha Verde já ligada pelo istmo
Em 1603 ou 1604, a Companhia de Jesus, pelos padres Alexandre Valignano, Visitador dos Jesuítas e Valentim de Carvalho S.J. reitor do Colégio de S. Paulo, tomou posse da pequena ilha que se situava no meio de um dos ramos do rio Xi (Oeste) entre as margens da península de Haojing (nome que Macau tinha nos registos chineses) e da ilha da Lapa. Era uma ilha inóspita a que, por troça, se deu o nome de Ilha Verde. Mas a verdade é que em poucos anos tal aglomerado rochoso, tornou-se num verdejante e agradável recanto para dias estivais, como relata a professora Ana Maria Amaro.
No primeiro quartel do século XVII, os jesuítas que já haviam fundado em Macau o Colégio de S. Paulo, começaram a cultivar uma parte da Ilha Verde, transformando-a numa quinta de recreio e nela edificando uma capela dedicada a S. Miguel. Esse recanto verde chamou a atenção de dois magistrados chineses, Tcheong U Lam e Ian Kuong Iâm que, em 1751, na sua monografia de Macau escreveram: “Actualmente os sacerdotes estrangeiros construíram residência e semearam diversas plantas e plantaram também árvores de fruto nesse sítio que passou  a ser um local para passeio e distracção dos habitantes de Macau.”
Artigo da autoria de José Simões Morais, investigador, publicado no JTM de 21-6-2011

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“Da cadeirinha ao automóvel, da sampana ao jactoplanador”. A 1ª edição é de 1990. Foi reeditado pelo Instituto Internacional de Macau em 2011, numa tiragem limitada e a propósito de uma homenagem ao prof. Jorge Cavalheiro. O Prof. chegou aos 9 anos a Macau e por lá tem estado até agora altura em que regressa às origens. No entanto garante que esta partida “não é um adeus, mas um até já”.
Foto Arquivo JTM

Em Abril de 2011, com Jorge Rangel, presidente do IIM

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“Quando o padre jesuíta Rho disparou um tiro de canhão e acertou com precisão, um vagão carregado de pólvora pertencente às forças invasoras holandesas, no dia 24 de Junho de 1622, Dia de São João Baptista, iniciava-se a história que originou o Dia de Macau: Oitocentos soldados holandeses desembarcaram na praia de Cacilhas, hoje região do reservatório, para tentar tomar Macau. Sessenta europeus e noventa macaenses tiveram que retroceder das areias de Cacilhas diante da sua inferioridade numérica. Os sinos tocavam insistentemente, as senhoras refugiavam-se em São Paulo e os tesouros foram guardados no Seminário. A cidade do Nome de Deus estava desprotegida. A maior parte dos portugueses viajara para o estrangeiro, comum naquela época do ano. Os holandeses, felizmente, não sabiam disso.
Avançando com cautela, sofreram pesado bombardeio de canhões da cidadela do Monte e um tiro disparado pelo padre jesuíta Rho acertou, em cheio, aquele vagão de pólvora. Isto desconcertou as forças invasoras. Dirigiram-se então ao cume a Ermida da Guia onde foram detidos pelas forças lideradas por Rodrigo Ferreira. O golpe final aos holandeses deu-se com a junção de dois grupos de combate de Macau que os atacaram quando se dirigiam a outra elevação. Em debandada, os holandeses ainda foram atacados pela população local. No combate final em Cacilhas, os holandeses, derrotados, jogaram-se ao mar na tentativa de alcançar os barcos. Muitos se afogaram e um dos barcos, superlotado, afundou-se. Dizem os registos portugueses que cerca de 350 holandeses morreram em combate ou afogados. Do nosso lado, os mortos foram 4 portugueses, 2 espanhóis e vários negros, para uma batalha que durou cerca de duas horas.
Para Macau, desprevenida, a vitória foi considerada um milagre. Após os combates, foram todos à Catedral para uma solene acção de graças, tendo o Senado e os moradores feito votos de comemorar este dia daí em diante, cuja salvação da cidade foi atribuída a São João Baptista. Conta a lenda que pelo seu manto, foram desviados os tiros dos inimigos”. 
Este dia foi, até 1999, feriado em Macau. Macau continua a ser Macau, mas o seu dia deixou de ser evocado….
A partir de “Macau Histórico” de C.A Montalto de Jesus.
Cerimónia militar a 24 de Junho de 1940 junto ao Monumento da Vitória (a tratar com maior detalhe num próximo post) no dia de Macau (evocando a vitória sobre os holandeses nesta data em 1622). Ao fundo, o Quartel da Flora.

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Porque Macau não é nem nunca foi só jogos de casino…
A apresentação do livro “Jogos, brinquedos e outras diversões populares de Macau” 2ª parte – I volume”, decorre dia 22 de Junho na DECM – Av. 5 de Outubro, 114 Lisboa.
Foto de João Botas – Macau, Jardim de Camões, 2009

Prefácio que a prof. Ana Maria Amaro me convidou a escrever para o livro…

“Macau é uma recordação agridoce”*
Em Outubro de 2010 ao receber o convite para escrever este prefácio a minha primeira reacção foi de total surpresa. “Não se terá enganado”, escrevi eu na resposta à Prof. Ana Maria Amaro, contrapondo que existiriam pessoas mais habilitadas já que me faltava “engenho e arte” para tão árdua empresa.
E agora? Como se escreve um prefácio? Ainda para mais de um livro escrito por uma professora catedrática jubilada?… Segundo Confúcio, reconhecer que não se sabe já é saber alguma coisa. Por agora, nem tudo estava perdido.
Ultrapassado o impasse e aceite o convite veio-me à ideia a imagem da capa do livro “Jogos, brinquedos e outras diversões populares de Macau”, uma gravura-aguarela (século XIX) de motivos chineses – representa um grupo de chineses jogando chiquia (bater a andorinha – ta yin) – muito colorida com traços de contorno a preto. Já tinha estado com aquele livro nas mãos ainda nos meus tempos de juventude em Macau mas será que o tinha na minha mini biblioteca dedicada a Macau? Infelizmente, tinha outros dois livros da sua autoria, mas esse não.
Eu e a autora vivemos em Macau em épocas distintas e com idades bem diferentes. Ela entre 1957 e 1972 já adulta. Eu na década de 1980 ainda adolescente. Ainda assim, algo nos ligava: o Liceu Nacional Infante D. Henrique, onde ela foi professora e eu fui aluno. E o fascínio por Macau e pela sua história.
Foi por causa disso quem em 2007 escrevi um livro sobre a história do Liceu e em 2009 criei o projecto Macau Antigo: http://macauantigo.blogspot.com, um blog onde Ana Maria Amaro é uma presença constante devido ao seu trabalho em prol da divulgação da cultura macaense.
Ou seja, sabia quem era e o que tinha feito, mas não conhecia Ana Maria Amaro. E foi desta forma que a ‘descobri’ como Presidente do Instituto Português de Sinologia. No final de 2009 realizei uma série de 25 entrevistas para o Jornal Tribuna de Macau a convite do seu director José Rocha Dinis. A ideia era assinalar o 10º aniversário da transferência de soberania de Macau, ocorrida em Dezembro e 1999. O critério utilizado na selecção dos entrevistados era muito simples: pessoas que se tivessem destacado na vida cultural do território e que vivessem na altura em Portugal. Por vicissitudes diversas muitas das entrevistas foram feitas via e-mail. A de Ana Amaro foi disso exemplo.
Numa longa entrevista amplamente ilustrada com fotografias da época fornecidas pela própria, abordaram-se diversos temas, nomeadamente os seus livros. Perguntei sobre os que tinha escrito e sobre os que ainda queria escrever. Eis algumas respostas:
Tenho dois livros por publicar com muito mais informação e um terceiro que está no prelo e é uma continuação do 1º volume de ‘Jogos e Brinquedos (…)’ que foi publicado em 1976 e mostra como eu ocupava o meu tempo em Macau para além das aulas.”
Instada a mencionar qual o seu livro preferido, respondeu assim: “Merecem-me especial destaque os dois que estão inéditos à espera de editor ou de apoios financeiros das Fundações interessadas em estudos sobre Macau/China.”
A entrevista foi lida e os apoios chegaram. Era mais um exemplo acabado daquilo que me levou a enveredar pelo jornalismo ainda adolescente, ainda em Macau: relatar factos, intermediar, alertar consciências… fazer a diferença. Hoje, tenho a sorte (e espero que também o mérito) de fazer aquilo que gosto e a mesma ilusão de juventude: a de que aquilo que faço serve para alguma coisa. Aqui está, portanto, a razão do convite que me foi feito para escrever estas linhas. É uma honra mas é ainda maior a responsabilidade. Em especial para um ‘analfabeto’ nos domínios da Antropologia ou Etnografia.
A presente edição é a continuação – se assim se pode dizer – do livro publicado em 1976 pela Imprensa Nacional de Macau. Apesar de muitas vezes persistir a informação de que o livro foi editado em 1972 (p.e., na Biblioteca Nacional), na verdade esse número corresponde ao ano em que a autora regressou a Portugal e o livro “foi deixado na gráfica”. Preciosismos à parte, certo é essa edição esgotou poucos anos depois e que hoje só se consegue encontrar numa daquelas livrarias/antiquário a 50 euros cada exemplar!
É nessa primeira edição que ‘aparece’ o “lárgà sarangum”, luta de papagaios. Recordo, a propósito, um excerto de um texto desse ilustre macaense, Henrique Senna Fernandes, recentemente desaparecido do mundo dos vivos:
“(…) Outro passatempo existia no Verão que era a largada do papagaio de papel também chamado o ‘sarangong’, preso à linha, esta de antemão preparada e tratada por uma massa de farinha, gema de ovo e vidro em pó que a tornava cortante. Assim se desafiava outro papagaio para um despique que se reduzia em ver quem cortava a linha do outro. Era o excitante ‘corta-corta’ que tanto entusiasmo produzia entre adolescentes e adultos que o céu de Macau, nas tardes prolongadas de verão, se enchia de ‘papagaios’ de diversas cores, para lutas renhidas. Empregavam-se estratégias, era uma pugna leal, havia verdadeiros campeões que eram galardoados pela admiração geral. Nisto se consumia a boa gente de Macau, num passatempo saudável e inocente, que traduziu bem a época ligeira e despreocupada em que se vivia, com a certeza de que o dia de amanhã seria igual ao dia de hoje.”
Nesta edição do século XXI não aparece o ‘sarangong’ mas estão lá centenas de exemplos de jogos e tradições populares macaenses. O trabalho de campo foi todo feito em Macau durante os mais de 15 anos que a autora ali viveu e trabalhou como professora. “Depois em Portugal levei alguns anos em trabalho de Biblioteca. Os conteúdos são todos novos e ilustrados, grande parte, a cores. Acabei de o redigir em 1998.” Mais de uma década se passou e finalmente esta obra de recolha etnográfica exaustiva (dividida em dois volumes com cerca de 600 páginas) vê a luz do dia. Uma luz que me ajudou a esclarecer partes da realidade que conheci em Macau há cerca de 20 anos.
Recordo-me de ficar intrigado ao ver junto à pequena muralha da Praia Grande, junto ao antigo Liceu, aquele jogo de xadrez (de peças pretas e vermelhas) com que os ‘velhotes’ matavam o tempo debaixo das acácias rubras. Hoje sei que se tratava do ‘Cheong Kei’, um jogo de origem milenar, inspirado na estratégia de guerra. Diferente do xadrez ocidental.
Nas muitas pesquisas e contactos que tenho feito para colocar conteúdos no blog Macau Antigo temas como as tradições da comunidade macaense (aqui incluo todos) têm despertado muito interesse e participação activa dos leitores. Foi assim que fiquei a saber um pouco mais sobre por exemplo o ‘talu’ e o ‘bafá’. O ‘bafá’ é um jogo de cartas muito em voga em Macau até às primeiras décadas do século XX, hoje praticamente esquecido. Já o ‘talu’ era jogado com dois paus, um que batia no outro, mais pequeno e afiado das pontas, como se de um lápis se tratasse. Ganhava o que conseguisse bater no pau sem ele cair ao chão, atingindo uma determinada distância em passos. Este jogo terá chegado a Macau pela mão dos jesuítas no início do século XVIII e manteve-se vivo até ao início do século XX. Em Portugal era conhecido por bilharda.
Muitos dos jogos e tradições abordados neste livro ou já desapareceram dos hábitos do quotidiano ou estão em vias disso muito por causa da diáspora do povo macaense e da voragem do tempo. Também por isso, este livro é imprescindível. Até para os que, ainda vivos, já quase os esqueceram. Cabe à actual geração de macaenses tudo fazer para não deixar morrer estas marcas da sua identidade ímpar no mundo.
E foi justamente sobre os macaenses que Ana Maria Amaro iniciou a sua paixão pela etno-história do Território. “Esse amor foi-se construindo à medida que fui conhecendo e compreendendo essa terra fascinante”.
No início na década de 1960, com base em dados recolhidos na tradição oral que na altura ainda existia e também nos ‘chôc pou’ das famílias Sam e Ho (manuscritos transmitidos de geração em geração e dos quais constam acontecimentos de várias épocas), Ana Maria Amaro desencadeou o processo de inventariação das primeiras famílias a habitar a cidade dois séculos antes de Jorge Álvares chegar à China. Se tivermos em conta que é habitual fazer-se um paralelismo entre o ‘início’ de Macau com a chegada dos portugueses…
Há quem viva num país que não o seu sem nunca o conhecer realmente. Não é o caso de Ana Maria Amaro. “A história de Macau assim como a história da China servem-me de suporte à etno-história que é aquilo que eu gosto de estudar.” (…) Foi assim que nasceu “o desejo de perceber onde estava e não me sentir analfabeta e surda, isto é, não saber ler nem compreender o que os chineses escreviam e diziam.”
E foi assim que começou por se interessar… pela flora local. “Foi o primeiro trabalho que eu publiquei sobre esse assunto depois de ter identificado algumas das espécies da flora local foi um artigo no Boletim Eclesiástico da diocese de Macau por insistência de Monsenhor Manuel Teixeira. O nome desse artigo era “Relíquias Botânicas de Macau”, no qual comecei por dizer que ‘não só as pedras nos falam do passado mas também o mundo verde para quem souber e quiser entende-lo’. A partir dos vestígios de buxo, violetas, tabaco, trepadeiras de betelo consegui localizar casas antigas de famílias abastadas macaenses já desaparecidas”
Estava dado o primeiro passo de uma longa caminhada à descoberta da realidade de uma cidade que embriaga o mais incauto viajante ou morador tal é a multiplicidade de sons, cores e cheiros em que se desdobra. Ana Maria Amaro não só apreendeu essa realidade de uma forma ímpar como nos deixou em várias obras (livros e artigos) o traço da sua passagem por Macau. Nestes textos retrata-se uma Macau de outros tempos que praticamente desapareceu e que importa perpetuar.
De tão extensa que é a lista, refiro apenas alguns exemplos: Ano novo chinês em Macau (1960), Contribuição para o estudo da flora médica macaense (1965), Pun Tchói (1966), Alguns aspectos do artesanato em Macau (1967), O velho templo de Kun Iâm em Macau (1967), Adivinhas populares de Macau (1975), Jogos, brinquedos e outras diversões populares de Macau (1976), Um jogo africano de Macau: a chonca (1980), Três jogos populares de Macau: chonca, talu, bafá (1984), Os macaenses como grupo: alguns dados antropobiológicos (1987), Filhos da Terra (1988), O traje da mulher macaense (1989), Aguarelas de Macau, 1960-1970: cenas de rua e histórias de vida: um olhar retrospectivo, um olhar de saudade (1998), etc.
«Ana Maria Amaro é um nome incontornável entre os que se dedicaram a investigar a história de Macau e da China. Chegou em 1957 “com os restos do tufão Glória” e regressou a Portugal em 1972 mas nunca cortou a sua relação com o Território, “essa terra fascinante” onde iniciou a carreira docente.»
Foi esta a introdução da minha entrevista a Ana Maria Amaro há cerca de um ano. Uma entrevista que impediu este livro de ficar escondido na gaveta. Uma gaveta onde está, também à espera de ser publicada “a minha tese de Doutoramento sobre Medicina Popular de Macau”. São cerca de três mil páginas dactilografadas onde estão as várias técnicas e “mezinhas” (cerca de 600 receitas à base de plantas) usadas pela população chinesa e luso-asiática ao longo dos séculos. Fica o alerta para quem tem responsabilidades na preservação e divulgação da identidade cultural macaense.
*Ana Maria Amaro na resposta à minha pergunta “o que é para si Macau?” em entrevista publicada no Jornal Tribuna de Macau a 8 de Janeiro de 2010
João F. O. Botas, no final de Novembro de 2010 em Portugal. Ou será Macau?
Jornalista e autor do blog Macau Antigo
Informações adiconais neste link

http://macauantigo.blogspot.com/2011/04/jogos-brinquedos-e-outras-diversoes-de.html

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