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Nas placas das ruas observa-se um fenómeno (quase de ficção científica) que evoca mundos paralelos. Em baixo (nas referidas placas de azulejo azul e branco), e em português, lê-se a consagração de um herói, de um bispo, de um escritor, de um acontecimento, ou, enfim…! de um topónimo. Em cima, em caracteres chineses, uma significação totalmente diversa.
É pois que, por exemplo, a tradição portuguesa decidiu preservar o apelido Botelho, numa calçada que parte do Porto Interior e desemboca no largo da igreja de Santo António. Ao certo não se sabe quem terá sido o tal Botelho que deu nome à calçada (Botelhos contam-se por milhares em terras de Vila Real e Trás-os-Montes e igualmente por Macau). Provavelmente terá sido um rico negociante do século XVIII. Para os chineses, porém, tal figura nunca existiu. Os caracteres sínicos que designam o nome da estreita viela, informam tão-somente que se trata da “Calçada da Barreira de Areia”. Tal designação tem a ver com as obras de restauração de um cais efectuadas na segunda metade do século XVIII, a instâncias da comunidade chinesa a fim de reparar um local de acostagem danificado pelos tufões, situado, mais ou, menos, no sitio onde hoje se ergue a ponte Nº 22 , para a qual o governo da altura não possuía orçamento suficiente para restaurar, tendo por isso que confiar o trabalho ao empenhamento dos privados.
Excerto de artigo de João Guedes publicado no JTM de 17-5-2011

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