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A tradicional romagem à Gruta de Camões é uma interessante característica da vida cultural, educacional e social de Macau, instituída pelo governador Rodrigo José Rodrigues em 1923.
O Padre Manuel Teixeira refere que a “iniciativa partiu dum patriota exaltado e fervoroso cultor de Camões, o Governador Rodrigo José Rodrigues, que logo no primeiro ano da sua chegada a Macau convidou as escolas e as forças armadas para irem à gruta homenagear o épico. E, caso único na história destas romarias, foi ele que enalteceu o vulto imortal do poeta e a sua emoção foi tão profunda que desatou a chorar, tendo de interromper o discurso”.
Rodrigo Rodrigues (1879-1963), foi uma invulgar figura de político, (médico militar do quadro colonial, com comissões em Cabo Verde (1903) e Índia (1904-1910), reitor do Liceu de Goa, ministro do interior, governador civil, deputado, autor de vasta bibliografia, bastante ostracizado pelo Estado Novo) que merece ser resgatada do esquecimento.
Desde então a romagem à Gruta de Camões ficou institucionalizada ao mesmo tempo que se legitimou a presença histórica de Luís de Camões em Macau. Camões esteve em Macau, sem dúvida, e o recente livro de Eduardo Ribeiro vem reforçar essa tese, aduzindo uma argumentação tão inteligente quanto historicamente segura. Gostaria de evocar a romagem à Gruta de Camões realizada no ano de 1937.
O governador Artur Tamagnini Barbosa cometeu a António Maria da Silva, Chefe da Repartição Técnica do Expediente Sínico, a tarefa de proferir uma conferência sobre a vida e a obra de Luís de Camões, no dia 10 de Junho de 1937, no cenário bucólico da Gruta, perante a mocidade escolar, o professorado, os convidados e as autoridades da Província.
António Maria da Silva evoca a constelação de valores do seu tempo: “Graças a Deus, Portugal vai regressando ao seu antigo apogeu, desde que passou novamente a tomar como lema da sua nacionalidade a Fé e o Patriotismo, a Religião e a Pátria. Devemos incontestavelmente este nosso regresso à Fé e ao Amor de Deus ao facto de sermos guiados por esse homem extraordinário que se chama António de Oliveira Salazar, português de raça e católico de alma e coração. Camões nunca separou a sua Pátria do seu Deus; Camões nunca imaginou que Portugal pudesse ser grande, sem o auxílio do Alto”. António Maria da Silva será, bastantes anos volvidos, deputado na V legislatura da Assembleia Nacional, em Lisboa. Essa interessante conferência é publicada nas línguas portuguesa e chinesa, em 1937, com o insólito título de “Sumário dos Luziadas”. A versão chinesa foi revista por Chu-Pui-Chi, letrado da Repartição Técnica do Expediente Sínico.
Excerto de artigo da autoria de António Aresta publicado no JTM de 9-6-2011
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