25 de Abril


>

Macau foi desde sempre vista de Lisboa muito mais como uma “pérola exótica” de diletantes e intelectuais, decorrente dos escritos de poetas e prosadores, nacionais e estrangeiros, que por aqui passavam, do que uma colónia credível, verdadeiramente importante, ou pragmaticamente rentável para o Estado. Os jornalistas das mais diversas nacionalidades acrescentavam pontos ao tema que romancistas e realizadores de cinema desenvolviam sobre este diminuto cantinho peninsular do Sul da China.
O filme “Macau o Inferno do Jogo” permanece como estereótipo protagonizado por Robert Mitchum e Jane Russell sobre uma cidade que, ao mesmo tempo era e não era, nos anos 50 e seguintes. Na literatura o estereótipo permanece no que escreveu, por exemplo, o grande novelista republicano espanhol W. Fernandez Flores sobre a Rua da Felicidade, retracto exacto de um bairro dos anos 30 (século XX) que igualmente era e já não era. Os senhores de “chapéus brancos de abas largas”, o canto morno das “pei-pai-chai” que tocavam cítaras e alaúdes, na pequena viela eram muito mais produto de uma imaginação ocidental fértil perante o exótico oriental do que realidade quotidiana que pouco romance continha. Aliás essa imagem de W. Fernandez Flores é um retrato que já se perdeu da memória da cidade há décadas e décadas tal como a própria viela. Quanto ao “Inferno do Jogo” nem tanto. Um pouco mais realista, já que americano ainda hoje contém em si traços de alguma verdade hodierna ainda que excessivamente ficcionada.
Sendo assim, Macau com os seus 16 quilómetros quadrados de perímetro (actualmente são 28.6 Km2 e mais se aguardam) perfilava-se negligenciável na geoestratégia de Portugal. Porém, nos domínios da cultura o seu estatuto era outro e de quase primeiro plano. Mas a história e a cultura sempre foram disciplinas de ordem negligenciável perante dividendos financeiros e ganhos eleitorais, que só têm em conta estatísticas e grandes números.
Em Macau a demografia era escassa não indo além das duzentas mil almas que habitavam a cidade e as ilhas nos idos da década de 70 do século XX. Além disso, nesses tempos, para a ditadura do “Estado Novo” os votos nada contavam já que a vitória estava sempre assegurada pelo partido único. Primeiro a “União Nacional” de Salazar, depois a “Acção Nacional Popular” de Marcelo Caetano. Por isso, Macau permanecia como sempre, aliás, última prioridade do antigo “Império Português das Descobertas” quanto mais não fosse pela erosão da História!
Não é portanto de admirar que, no cômputo dos problemas gerados pela descolonização de regiões tão vastas como Angola e Moçambique, Macau, mais as suas pequenas ilhas anexas (Taipa e Coloane que na altura nem para Macau contavam coisa que se visse, já que nas ilhas a população era demasiadamente diminuta para mal conter um freguesia e meia), permanecesse durante algum tempo na gaveta dos assuntos pendentes da “Revolução de Abril”, protelando-se até à eventual chegada de representantes oficiais do Governo de Lisboa que trouxessem indicações claras sobre o que iria acontecer, facto que parece ter contribuído para fazer aumentar o “stress” local (Stress: – vocábulo novo com que a psiquiatria moderna elidiu o nervoso e a histeria antigos).
Isto tanto mais que a República Popular da China (RPC), do mesmo modo, parecia não ter pressa em dar qualquer indicação das suas intenções sobre o futuro do território português (se não o tinha dado nos trezentos, ou quatrocentos anos anteriores que urgência teria em fazê-lo agora?…). Mas, nesse tempo a urgência de um sinal claro sentia-se profundamente não só entre portugueses, mas com igual intensidade entre chineses também.
Esse vazio de respostas a interrogações prementes levou o governador Nobre de Carvalho a enviar a Lisboa o seu chefe de Gabinete (Lajes Ribeiro) que manteve um encontro com o Ministro da Coordenação Interterritorial (Almeida Santos) e trouxe boas notícias: – “Vim de lá com uma certa tranquilidade porque senti que o Ministério estava a encarar o Governo de Macau com muito realismo, com muito pragmatismo e foi quando ele (Almeida Santos) anunciou que viria a Timor e a Macau”.
Mas a boa impressão trazida por Lajes Ribeiro, não parecia capaz de apaziguar receios. Por isso, quando é finalmente anunciada oficialmente a deslocação de Almeida Santos para tratar da descolonização extremo-oriental, a notícia é recebida com certo cepticismo, para não dizer mesmo pânico, principalmente entre a população chinesa, já que se registaram nessa altura corridas aos bancos e a toda poderosa Associação Comercial pareceu pela primeira vez titubeante.
Negócios eminentes e apalavrados foram desfeitos de um momento para o outro; projectos de investimento de grande envergadura congelados pelos seus promotores e até pequenos construtores civis deixaram a meio a erecção de edifícios nas avenidas Novas (Horta e Costa e Ouvidor Arriaga) e também, na frontaria principal da Praia Grande, esperando que a situação se clarificasse.
A pataca sem o aval do “Império Português” que patentemente se esboroava com a revolução poderia passar a valer zero e, por isso, o povo reagiu acorrendo às caixas bancárias para levantar as suas economias antes que fosse tarde.
O que é que iria dizer Almeida Santos quando chegasse? Ninguém sabia!…
Tentando desdramatizar a situação, o Governo Português esclarece que o termo “descolonização” contido no dossier do Ministério da Coordenação Inter-territorial se referia exclusivamente a Timor. Os esclarecimentos, porém, não produziram efeitos, nem imediatos nem seguros. Garcia Leandro, que acompanharia o Ministro no seu périplo oriental, refere mesmo ter encontrado em Macau “um grande receio. Era como se para a população local o 25 de Abril tivesse aberto uma grande porta para lá da qual era a mais completa escuridão”.
Garcia Leandro, oficial ligado ao Movimento das Forças Armadas (MFA) e desde o início vocacionado para os assuntos de Macau e Timor, manteve-se no Território algum tempo auscultando a população sobre o perfil do novo governador que deveria substituir Nobre de Carvalho, sobre o qual Almeida Santos, perante o “Teatro Diocesano” repleto, teceria “rasgados” elogios que terão calado fundo nalguns corações, mas não nos da maioria.
Pouco depois, Garcia Leandro regressaria a Portugal, apenas para voltar, mais tarde e dessa vez graduado em major a fim de ocupar o assento vago do Palácio da Praia Grande com a partida do velho general retirado.
Tanto para os democratas como para os conservadores, as notícias da eclosão do 25 de Abril de 1974 causaram generalizada satisfação.
Para os primeiros abria-se uma nova era de liberdade. Para os outros a possibilidade de conseguir a tão almejada autonomia ansiada desde os idos da revolução de 1822. No entanto, passada a euforia inicial, uma parte da população, incluindo a comunidade chinesa temeu (como disse antes) pelo futuro.
A descolonização tomava prioridade em todas as agendas do Portugal político e revolucionário e nenhuma indicação chegava que permitisse claramente depreender que Macau seria tratada de maneira diferente de Angola, Moçambique, Guiné, Timor, Cabo Verde, ou S. Tomé e Príncipe.
É neste contexto de reserva generalizada que o Ministro da Coordenação Interterritorial do primeiro Governo Provisório (Almeida Santos) efectua a referida deslocação ao Oriente.
Uma deslocação vista com ansiedade or Macau (como se disse antes), mas principalmente pela vizinha colónia inglesa de Hong Kong, onde o Governador Lord Crawford Murray MacLehose (preocupado) enviou insistentes telegramas a Almeida Santos para se encontrar com ele antes de embarcar no “hidrofoyl” (“hidrofoyls” eram os navios rápidos que antecederam os “jetfoils” ainda mais rápidos dos dias de hoje, que faziam a carreira entre Macau e Hong Kong e vice-versa) para Macau.
Almeida Santos encontrou-se de facto com o governador britânico antes de chegar a Macau e procurou descansá-lo, ainda que não se saiba se inteiramente o conseguiu. Foi em razão dos receios crescentes que o “Foreign Office” fazia sentir que Almeida Santos, depois de ter estado em Timor entendeu ser indispensável passar por Macau, ainda que aqui pensasse ir tratar de um problema menor e mais fácil de resolver do que o da Insulíndia. Mas não foi assim. Quando chegou constatou que as informações que possuía não seriam exactamente as que esperava: “Quando cheguei havia uma grande ansiedade de facto. A pataca tinha baixado de cotação e as pessoas estavam preocupadas. Qual vai ser o futuro de Macau? E eu pude fazer uma comunicação pública num teatro da cidade em que afirmei: Macau é uma jóia rara. É um caso especial, para nós não é uma colónia. Para Macau não se põe o problema de nenhum processo de descolonização. Isso aquietou os ânimos. No dia seguinte a cidade era outra e eu fiquei muito feliz por ter contribuído para desfazer essa ansiedade”.
Nesse intróito (dramático, pode dizer-se), Nobre de Carvalho teria ainda ensejo de concluir da melhor maneira o seu atribulado mandato inaugurando em 5 de Outubro de 1974 (simbólico acto que coincidiu com a comemoração dos 64 anos da implantação da República Portuguesa) a nova e primeira ponte entre Macau e a Taipa que receberia o seu nome. Cinco dias depois partia para Lisboa convencido de que Macau não viria a beneficiar muito com o 25 de Abril.
– “Viria a beneficiar sim, de uma maior representatividade dada à população nos órgãos do governo próprio do Território e nas autarquias. Isso impunha-se e principalmente aquilo que eu nunca tive, que era ter maior liberdade de acção, não estar piado como sempre estive em consequência das leis que então estavam em vigor, pelo Terreiro do Paço, digamos, por Lisboa”.
Uma opinião subscrita também por Garcia Leandro que sublinha: “A primeira impressão com que fiquei foi que o território teria grandes possibilidades de desenvolvimento, estava numa área económica muito importante, mas devido ao sistema político que existia então se encontrava atrofiado”.
Depois da partida de Nobre de Carvalho, o inevitável processo de adaptação às novas condições levantou ainda mais a agitação. Uma agitação centrada quase exclusivamente na comunidade portuguesa civil e militar. Quanto à liderança da comunidade chinesa perante a “Revolução Cultural” “rampante” tinha muitas outras coisas políticas, financeiras e económicas, com que se preocupar.
Nos meses seguintes acentuaram-se clivagens e divergências, a polémica redobrou nos jornais e os comícios inflamaram-se mais ainda, culminando num período que registou algumas semelhanças, ainda que de escala bem diferente, com o que ficou conhecido em Portugal por “Verão Quente de 1975”. Todavia, apesar das divergências de pontos de vista é hoje unânime que mais do que qualquer outro anseio, o 25 de Abril trouxe para Macau, acima de tudo, uma autonomia que tardava pelo menos desde que os liberais de 1822 tinham fracassado na sua tentativa de se eximir à obediência de Goa e governarem-se a si próprios quase duzentos anos antes. A história repete-se e irá com certeza repetir-se. É pena que as gerações por vezes teimem em esquecer-se da história.

Artigo da autoria de João Guedes publicado no JTM de 26-4-2011

Edição de 30 de Abril de 1974 do suplemento em inglês do diário Gazeta Macaense.
Mais um excusivo “Macau Antigo”.

>

Em 1966, Macau tinha vivido o momento das maiores incertezas. A Revolução Cultural da China, provocara danos incalculáveis que se estenderam ao Território português onde os guardas do socialismo, operários e estudantes, já que em Macau não havia camponeses, a não ser os poucos que cultivavam hortas nas traseiras de suas casas nas ilhas da Taipa e Coloane e nos terrenos vagos do Bairro do Hipódromo (actualmente regurgitante de edifícios). Mas esses não se podiam classificar tecnicamente como tais e por lá ficaram sossegados nas suas hortas a regar hortaliças.

Os outros empunhando o “livrinho vermelho” tinham tido a ousadia de invadir o Palácio da Praia Grande, derrubando as vacilantes barragens policiais e obrigando o recém-chegado governador Nobre de Carvalho, ignorante do que se passava, a ouvir em indecifrável cantonense as palavras revolucionárias do “Livro Vermelho” de Mao Tsé-tung” recitadas pelos pequenos estudantes adolescentes da “Escola Hou Kong”, entre outras, no átrio do seu próprio gabinete, facto que para além de ofender a ordem pública, perturbava o normal despacho da burocracia do Estado que teimava em continuar apesar do “cataclismo” em curso.
Nobre de Carvalho, apesar de ter sido avisado do que se passava apenas à chegada a Hong Kong pelo seu homólogo britânico Sir David Clive Crosbie Trench, saiu-se bem do caos político oriental conseguindo, ao contrário de Vassalo e Silva (em Goa), salvar Macau de uma eventual (ainda que muitos considerem, ainda hoje, duvidosa) invasão e retomar o ritmo de crescimento económico que se prefigurava antes, mas que tinha sido brutalmente interrompido quando ainda mal dava os primeiros passos a dita “Revolução Cultural”.

“Nobre de Carvalho teve muito azar. Quando chegou a Macau apanhou com o “1, 2, 3”, sobre o qual sabia talvez menos do que eu e no fim do mandato apanhou com o 25 de Abril”, recorda o então director da “Rádio Macau” (“RM”), Alberto Alecrim, um veterano da queda de Goa, onde conheceu o cativeiro como prisioneiro de guerra.

Mas se o Governador nada sabia da “Revolução Cultural” que conheceria do que se preparava em vésperas de 25 de Abril de 1974 em Portugal? Provavelmente saberia o mesmo, ou seja nada mais do que rumores sem importância, pensaria o general… Quando muito, o seu chefe de gabinete, Lajes Ribeiro, seria o mais avisado para os efeitos do que uma guerra colonial, que se prolongava há anos consecutivos, provocava nas fileiras militares, cada vez mais desmoralizadas. Isto a avaliar pelos contactos que Lajes Ribeiro tinha mantido pouco antes na Metrópole durante um dos seus cursos de promoção com oficiais que participariam activamente na revolta de Abril, nomeadamente com o major Ramalho Eanes (seu contemporâneo). A mobilização para Macau (e regresso já que antes tinha aqui cumprido comissão de serviço anterior) afastou-o, porém, dos labirintos da conspiração impedindo-o de seguir os acontecimentos que se desenvolviam em movimento acelerado na “Metrópole” nos anos de estertor do “Estado Novo”. Quanto à generalidade da população de Macau mantinha-se alheia já que as notícias de Portugal chegavam previamente censuradas de Lisboa aos jornais e à “RM” e as notícias trazidas pelas cartas do correio, ou por um ou outro qualquer novo oficial, ou funcionário público, que chegava não eram nem suficientemente claras nem consistentes para serem consideradas como mais do que anedotas, boatos e opiniões pessoais.
Tudo isso provocava, naturalmente, discussão (em voz baixa, é claro) no “Clube Militar”, “Restaurante Solmar” (centro da “má-língua” e dos diz-se que se diz), algumas conversas no “Clube de Macau” (local onde tudo interessava menos isso) e nas tertúlias em casa de cada uma. O “Universo” local não passava disso mesmo: Tertúlia conspirativa eventualmente sem consequências de maior que se manifestava sem consequências há décadas e décadas. Dizer mal do Governador e da República era, pode dizer-se, desde sempre uma exercício cultural interessante mas politicamente inconsequente. Macau estava muito longe das “tricas” políticas do outro lado do Mundo, ou seja de Lisboa. O que interessava, de facto, eram os desenvolvimentos da China.
A tentativa fracassada de sublevação do regimento de infantaria 5 das Caldas da Rainha de 16 de Março de 1974, também não esclareceu ninguém já que, mais uma vez, os três jornais de Macau (“Gazeta”, “Notícias” e “Clarim”) recebiam apenas para publicação inócuos telexes do regime através da “Agência ANI” (antecessora da “ANOP” e da actual “Lusa”) informando que “a situação estava calma em todo o país” e nada mais.
Esses telegramas eram tão parcos que nem sequer referiam que tinha havido uma sublevação militar ainda que frustrada na Metrópole (?…). Na prática não diziam nada a não ser que Portugal do Minho a Timor continuava a vogar no “melhor dos mundos”… Por seu turno o serviço mundial da “BBC” e amplamente escutado em Macau pouco mais acrescentava. No entanto, “que o ambiente andava tenso em Portugal todos sabíamos, mas ninguém esperava uma acção tão súbita das forças militares. E que a insatisfação no país e a guerra em África tinham de ter um desfecho, também se sabia”, escreve nas suas memórias Graciete Batalha, professora do ensino secundário interventora na vida social e política local, membro do então chamado “Conselho Legislativo” e acérrima defensora dos princípios mais conservadores do “Estado Novo”.
Apesar da sensação de que algo ia mal na Metrópole certo é que esse sentimento partilhado esteve longe de constituir óbice à reunião solene da sessão legislativa (no rés-do-chão do Palácio da Praia Grande) para ouvir um longo discurso do governador Nobre de Carvalho, no qual figuravam as grandes linhas de acção governativa para o ano seguinte, com destaque para os benefícios evidentes que a eminente conclusão da ponte entre Macau e a Taipa trariam ao Território (e que de facto trouxeram, ainda que fosse pouco e parco, mesmo nesse tempo). Principalmente numa altura em que Macau se debatia com a escassez de abastecimento de água e electricidade por falta de meios de pagamento). Terminado o discurso foi a vez do deputado Henrique de Senna Fernandes, agradecer protocolarmente a presença e os esclarecimentos do Governador. Depois disso e também de acordo com os costumes, o “Conselho” elaborou o habitual telegrama de apoio ao regime e à sua política ultramarina (que elaborava todos os anos numa burocracia antiga). “Fui até eu que redigi o telegrama, que seguiu para Lisboa e que chegou à capital precisamente no dia 25 de Abril”, lembra Henrique de Senna Fernandes, que acrescenta: “Fi-lo com convicção, porque nós ultramarinos gozávamos de uma situação privilegiada no antigo regime. Sentíamo-nos garantidos com essa política”. Mais de 20 anos depois, Senna Fernandes (entrevista que me concedeu para um documentário sobre a passagem dos 15 anos do 25 de Abril em Macau para a “TDM”) recordou com humor a situação então vivida, ainda que na altura a chegada das notícias da revolução estivessem longe de lhe ser agradáveis.

Palácio do Governo

“Cerca das três e tal, da tarde do dia 25 de Abril fui para o meu escritório, quando recebo um telefonema do Pedrinho Lobo que me diz: – Tu estás ‘lixado’! Acabaste de fazer o discurso de apoio ao regime e o regime caiu! Exclamou o Pedrinho. Cinco minutos depois telefona-me meu pai a dizer também que Marcelo Caetano e Américo Tomas tinham ido ao ar. Claro que já não trabalhei mais nesse dia. Eram notícias impossíveis para nós que tínhamos sido criados no regime. Como era possível?”. Durante todo esse dia, Alberto Alecrim continuou a manter no ar a programação normal da “RM” sem que os telexes das agências “Reuters” e “France Press”, recentemente instalados nos estúdios da “emissora” mostrassem nada que merecesse particular destaque para inserir no boletim noticioso seguinte, a não ser um desastre de combóio na Índia, uns mortos em combate na guerra do ditador Marcos das Filipinas contra os comunistas em Manila e arredores e os últimos avanços do Vietname recém-unificado (em Janeiro do ano anterior) sobre os países vizinhos. De resto, mais nada de relevante para o mundo e muito menos para Macau. Só à noite Alecrim soube da revolução e não através dos telexes, mas sim graças a um convidado para o seu programa.
O visitante era Rui de Mascarenhas, um dos maiores expoentes do que era conhecido então como “nacional cançonetismo” que tinha combinado entrevista com Alecrim para essa noite antes de actuar no Hotel Lisboa (como é que Rui de Mascarenhas soube? Alecrim não explica. Qualquer dia hei-de lhe perguntar porquê…).
“Ficamos logo a recolher toda a informação disponível nos telexes e nas rádios estrangeiras, que levei depois ao ‘Portas do Sol’ (famoso restaurante do Hotel Lisboa) onde estava o senhor major Lajes Ribeiro a jantar (era o ‘Abril em Portugal’ que se comemorava todos os anos) e ao qual entreguei o que tinha podido colher”.
Mas Lajes Ribeiro já sabia. “A notícia chegou-me por um telefonema do posto de rádio da polícia o qual recebia a ‘Press’ (‘Press’ eram os chamados ‘SITREPES’, espécie de relatórios de conjuntura distribuídos diariamente pelo ‘Estado Maior das Forças Armadas’ para todas as unidades militares de Portugal e do Ultramar) que me deu conhecimento de que tinha acontecido o movimento e sido feita aquela declaração inicial que eu recebi passado algum tempo e tive ocasião de dar a notícia ao major Rocha Vieira (Chefe de Estado Maior da Guarnição de Macau). Foi com muita alegria, porque todos nós, ou pelo menos muitos de nós ansiavam que a solução viesse”.

Independentemente das suas próprias convicções, também o seu chefe Nobre de Carvalho confirmaria, em entrevista à “TDM”, onze anos depois dos acontecimentos, que “o 25 de Abril foi recebido bem por todos os portugueses e chineses. Os chineses, evidentemente, tendo uma ignorância grande sobre o que se estava passando embora eu tivesse tido ocasião de no ‘Conselho Legislativo’, com as notícias que recebia de Lisboa os pôr ao corrente do que se passava”. No entanto, Macau (comunidade portuguesa e chinesa) recebia com cautela as novas informações que iam chegando, estando longe de registar (como seria de esperar, aliás) as esfusiantes cenas de entusiasmo das ruas de Lisboa. “Aqueles factos mais emblemáticos do 25 de Abril, não tinham possibilidade de concretização em Macau. Em Portugal, foram abertas as prisões e soltos os presos políticos, mas em Macau não tínhamos presos políticos. Foi o encerramento da PIDE/DGS, até com cenas de algum dramatismo. Mas, Macau era o único ponto do território português que não tinha PIDE/DGS (sublinha Lajes Ribeiro). Se alguns vivas se pronunciaram, ou garrafas de champanhe se abriram em honra da revolução não foi nas ruas mas tão-somente na discrição disciplinada de alguns quartéis ou na intimidade das casas dos democratas”.
A este propósito diga-se que se efectivamente em Macau, formalmente, não havia PIDE/DGS (como a RPC tinha imposto anos antes, ao que se diz), de facto, esta funcionava efectivamente sob cobertura de subsecções nas Polícias Judiciária e de Segurança Pública. O primeiro sinal verdadeiro de entusiasmo e rebeldia que se coadunava perfeitamente com o espírito da revolução veio não em forma de manifestação, de rua, mas através de um soneto à liberdade do então poeta proscrito Manuel Alegre, declamado de forma arrebatada em plena sessão do Conselho de Governo. Quem o fez foi o jovem deputado José Celestino Maneiras, um arquitecto formado no Porto, que ali se tinha ligado aos círculos estudantis da oposição. Homem de esquerda que sempre manteve as suas convicções.Um acto inesperado de um jovem renovador que deixou estupefactos os seus colegas. Mas a atitude desse deputado ainda que de uma forma anti-regimental limitava-se, na prática, a declarar oficialmente, em nome de todos, autorizada a liberdade no território português da China. Isto ainda que o carimbo da censura perdurasse por mais de um mês em Macau depois da revolução de Abril.
O Conselho de Governo e o próprio Governador ficaram estupefactos, tanto mais que em Macau o autor de “A Praça da Canção” e de “O Canto e as Armas”, por não constar dos manuais do liceu era absolutamente desconhecido de quase todos, embora o não fosse há muito tempo dos círculos da oposição “portuguesa continental insular e ultramarina”. Manuel Alegre e Zeca Afonso já eram há muito os trovadores da liberdade em Portugal. Mas a Macau nunca tinha chegado até então a voz grave e séria de Manuel Alegre que falava contra o regime nas ondas curtas desde Argel (Argélia) através da “Rádio Portugal Livre”. Enfim! Uma surpresa para Macau habituada no liceu a ouvir apenas as rimas de Camões, António Lopes Vieira e quejandos que constavam da selecta literária que Graciete Batalha ensinava no liceu e que via com maus olhos (supõe-se) a “Primavera Marcelista” que já admitia outros trovadores mais hodiernos.
O caso ocorria em vésperas da fundação da primeira associação cívica local (concomitantemente com a restauração dos partidos políticos em Portugal) o “Centro Democrático de Macau” (CDM) agrupamento de democratas de diversas tendências formado com vista a contribuir para a liberalização política do Território.
Até ali a timidez continuava imperar, ainda que no dia 29 de Abril, os deputados (que então ainda não possuíam essa designação) tivessem concordado em obliterar o telegrama de Senna Fernandes enviado alguns dias antes e a insistências (diz-se) do Governador reformular o dito decidindo-se por nova fórmula do mesmo texto, ou quase, reenviando desta vez com novo endereço e esse era não já o Palácio de S. Bento, mas o da Cova da Moura onde o General Spínola liderava a “Junta de Salvação Nacional” novo telegrama.

Porto Interior: década 1970

Este, agora, transmitia incondicional apoio de Macau à nova liderança Nacional Revolucionária. Para além de uma deputada (a inevitável Graciete Batalha), que se recusou a aprovar o teor do novo texto (como seria de esperar), ninguém mais pareceu registar qualquer contradição no facto.
O governador Nobre de Carvalho, acabava de anunciar ter sido confirmado no cargo pelo novo poder de Lisboa, o que parecia bom sinal, levando a generalidade dos deputados a acreditar nas boas intenções dos elementos da “Junta de Salvação Nacional”, entre os quais se contava o general Jaime Silvério Marques que governara Macau (1959/62) onde deixou numerosos amigos e saudades (ainda que também inimigos como é natural nestas coisas da política) e ao qual foi enviada igualmente uma mensagem especial de regozijo por constar na primeira fila da Revolução de 25 de Abril de 1974.
No “entrementes”, como se diria nas telenovelas brasileiras, Macau inteiro ficava na expectativa sobre o que iria acontecer a seguir. E o que se seguiria não seria fácil para ninguém. 

Artigo da autoria de João Guedes publicado no JTM de 19-04-2011
Fotos várias da época: algumas de Susan Blumberg-Kason

Outros – entre muitos – posts sobre o tema: