anos 40


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António de Matos Oliveira nasceu a 18 de Novembro de 1927 em Vale de Besteiros no concelho de Tondela e faleceu a 23 de Abril de 2010.  Cumpriu o serviço militar na então denominada Colónia de Macau entre 1949 e 1951. A sua passagem por Macau foi breve mas marcante. Tudo começou no antigo Cais de Santa Apolónia. Era aí que os soldados ‘apanhavam’ os navios que os levavam para “Ultramar”.
A 15 de Julho de 1949 foi a vez de A. Matos de Oliveira subir a bordo do “Niassa” rumo a Macau. Desembarcou no Território 40 dias depois, a 24 de Agosto. Fez parte do grupo de homens que constitui a ‘Bataria Independente de Artilharia Anti-Aérea 4 cm Expedicionária’, uma das várias unidades criadas na altura para proteger o Território da situação conturbada que se vivia na China.
O regresso a  Portugal aconteceu a 23 de Outubro de 1951 no navio ‘Timor’ que passou por Macau proveniente da Província de Timor na sua viagem inaugural“. A chegada a Lisboa ocorreu a 23 de Novembro de 1951. Um das suas filhas, Vitalina, recorda a memória do seu pai… um testemunho na primeira pessoa em exclusivo para o blog Macau Antigo.
Sou filha de um antigo soldado em Macau. Meu pai embarcou para Macau no vapor “Niassa”, no dia de Julho de 1949, tendo ficado aquartelado em Mong Há. Regressou à Metrópole em 26 de Outubro de 1951 no vapor “Timor”. Deixou a escola aos 10 anos e foi trabalhar com os irmãos mais velhos. Trabalho sazonal no Ribatejo, Alentejo… onde quer houvesse trabalho… não gostava de falar desse tempo. Só me lembro de o ter feito há uns anos quando víamos juntos um programa sobre as comemorações do fim da 2ª Guerra Mundial. Falou do sofrimento desse tempo e disse… “tempos de escravidão, não gosto de me lembrar”…

Dessas viagens e dos tempos em que por lá esteve, muitas histórias nos foram contadas na infância e Macau,era como uma terra de conto de encantar. Chamávamos a essa História em jeito de brincadeira e algum enfado “ A Rota de Ceilão”…
Esta história era acompanhada por muitas imagens guardadas num velho álbum. Anos mais tarde, era aos netos que a história era contada, mas já sem imagens. Perdemos o rasto ao seu álbum. Meu pai deixou-nos há poucos dias. Tivemos que abrir as gavetas da sua velha secretária onde nem filhos, nem netos, estavam autorizados a mexer.
No meio das suas muitas recordações, caíram nas minhas mãos as velhas fotos que tanto me fizeram sonhar na infância e a “Rota de Ceilão” acordou na minha memória.
Tive curiosidade em saber se Macau também deixou saudades em outros antigos combatentes e foi assim que descobri o seu blog.

Foi “alistado” em 1947. Para Macau acho que foi porque lhe “calhou nas sortes”… Não foi militar de carreira, mas creio que adoraria ter sido. Admirava o Exército e lá em casa a disciplina era “militar”… também deveria ter sido um bom economista, contas era com ele e administrar finanças melhor ainda…
António de Matos Oliveira frente à gruta dedicada a N. S. de Fátima
Casou três anos depois do regresso de Macau, mas o namoro já era antigo. No ano seguinte nasceu a primeira filha. Para fugir à vida do campo que detestava, foi como “guarda” para uma exploração mineira no lugar de Várzea dos Cavaleiros, na Sertã, no ano de 1956. Ai nasce a 2º filha, eu. Em 1960 já tinha quatro filhos.
Folha da Caderneta Militar de A. Matos de Oliveira
Nesse ano passa a “capataz” da “lavaria” da mina. Vai a Espanha fazer formação e passamos a residir na “mina”. Somos quatro crianças num mundo de adultos. É nesse tempo que a “história da rota de Ceilão” encanta a nossa infância. Não há televisão…apenas telefonia…e o álbum do meu pai é o único livro lá de casa. Quando abria aquele livro de capa castanha, com um “pagode” chinês estampado e nos falava do Canal do Suez, mar Vermelho, Colombo, Rio das Pérolas, Portas do Cerco, Gruta de Camões, a areia da praia de Coloane, os templos chineses, era tudo uma magia. Descrevia cada uma das fotografias e muito ficava na nossa fantasia.

Casa de Sun Yat Sen: década 1950

Lá em casa só havia conversas com homens, mas muitos assuntos eram proibidos. Ouviam uma estação de rádio de que não podíamos falar… e contavam muitas histórias de bruxas, lobisomens e outros feitiços de encruzilhadas…e claro a rota de Ceilão deixava aqueles mineiros sem palavras… Em 1965 aquela exploração mineira foi encerrada. Com a mesma empresa mudamos para Castelo de Paiva, para as minas de Terramonte.

Pela primeira vez vivíamos na aldeia. Meu pai tinha mais responsabilidades e mais trabalho e nós passávamos o dia na rua, se não havia escola. A” vida social” era intensa: televisão na “venda” ( taberna, mercearia e salão social e cultural da aldeia… visitas a todos os colegas de meu pai, festas e romarias, e até livros da Biblioteca Itinerante da F.C. Gulbenkian. Assim a rota de Ceilão perdeu interesse.

Entre 1967 e 1970 nasceram mais três crianças e a preocupação de meu pai era ter uma casa sua para toda a família. trabalhava muito, andava cansado, não havia mais tempo para histórias. Em 1975, a empresa fechou e lançou no desemprego todos os seus trabalhadores. Mas naquele tempo ninguém ligou. Portugal vivia tempos de História e a história destes mineiros não interessava. Cansado o meu pai não aceitou voltar a acompanhar a empresa em mais uma mudança. Aceitou a indemnização, reformou-se por doença e voltou para a sua aldeia. Toda a família protestou. Era uma aldeia pobre sem escola e sem estradas, habitada por mulheres, crianças e velhos e todos os meus irmãos estavam em idade escolar.
Foi convidado para a lista da autarquia que dava os primeiros passos em tempos de Liberdade. Conseguiu a escola, abriu-se a estrada, chegaram os transportes. Esteve sempre disponível e atento aos problemas da sua aldeia e das suas gentes. Os meus irmãos mais novos já não tiveram direito a ouvir as histórias da rota de Ceilão e o álbum castanho apareceu destruído pelos mais pequenos. Sempre pensamos que as fotos também tivessem sido destruídas.
Sempre lúcido, atento e disponível era escutado em todas as decisões da aldeia e sempre lutou por ela, mesmo contra a opinião dos seus filhos que nunca sentiram aquela aldeia como sua. Começaram a aparecer os genros, os netos a novamente a “rota de Ceilão” era história. Macau era para ele um sonho que não compreendíamos ( só após a sua morte o compreendo), mas dizia que não queria voltar, nem mesmo quis visitar o Pavilhão de Macau na Expo 98 quando o convidamos. Com o neto admirou todas as fotos que tiramos.
Quando encontrei as suas fotos e caderneta militar, aceitei o desafio do meu filho em construir uma “história” para oferecer a todos os meus irmãos, mas para isso precisava descobrir porque Macau fora tão importante para ele. Vou-o conseguindo e o “Macau Antigo” tem sido uma surpresa. No Portugal pobre, analfabeto, e fechado do final da guerra, Macau deve ter sido uma magia para ele. Deixou-nos essa magia e uma família com muitos filhos e netos.
Vitalina Matos de Oliveira, Coimbra, Abril/Maio de 2010

NA: a primeira parte destas memórias pode ser consultada neste post
http://macauantigo.blogspot.com/2010/05/memorias-de-vitalina-sobre-o-seu-pai.html

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Maurício Teixeira em Agosto de 1940 na resposta (excerto) ao convite de Salazar para ser governador de Macau: “Enfim, é serviço, e serviço não se discute: cumpre-se”. O desagrado era evidente mas era nele que o Presidente do Conselho confiava para conduzir os destinos da então colónia. E quem é dizia que não a Salazar?…
Gabriel Maurício Teixeira foi governador de Macau entre 1940 e 1946, um dos períodos mais conturbados da sua história, o da Guerra do Pacífico. No link mais alguns dados…
Entre os chineses era conhecido como Tai Si Lok (a tradução fonética do apelido). Nomeado por Salazar após a morte de Artur Tamagnini de Sousa Barbosa a 10 de Julho de 1940 (nascido em Macau e governador por 3 vezes), foi reconduzido no cargo em 1944 mas o desfecho da guerra ditou um regresso antecipado a Portugal/Moçambique. Macau ficou então com um encarregado de governo – Samuel Vieira, o comandante do “Afonso de Albuquerque” – desde 5 Agosto de 1946 até 1 Setembro 1947 quando um novo governador, Albano Rodrigues de Oliveira, tomou posse.
Depois de saír de Macau – onde foi o 2º governador a estar mais tempo no cargo de forma contínua – Gabriel Teixeira foi governador-geral de Moçambique (1948-1958), onde estava quando Salazar o nomeou. Morreu em 1973.
No livro “Marinheiros Ilustres relacionados com Macau” Monsenhor Manuel Teixeira cita uma nota publicada nos Anais do Clube Militar Naval, em 1973, à data da morte de Gabriel Maurício Teixeira, assinada por alguém que Monsenhor refere como L.A. e do qual transcrevo alguns excertos:
“Em 24 de Julho de 1973 faleceu o Comandante Gabriel Maurício Teixeira, que foi um dos melhores valores de que dispôs a Armada na sua geração. (…) serviu o País com excepcional brilho, tanto na Armada como na Administração Pública. (…) Desde muito novo que se revelaram as suas notáveis qualidades de militar, de marinheiro e de homem de acção, que sempre esteve pronto a demonstrar em quaisquer dificuldades ou momentos de risco (…) Fora da sua arma, não foi menos apreciável a sua actuação em altas funções da Administração Pública e noutras de grande interesse para a Nação. Ficou vincada por múltiplas e valiosas intervenções a sua passagem pela Assembleia Nacional, como deputado em várias legislaturas e teve também especial relevo uma longa permanência que fez no Ultramar, em postos da maior responsabilidade, que soube ocupar com mais são critério, esforçada diligência e grande distinção. Bastará recordar os vários lugares de Governo que lhe estiveram confiados. Começou por ser, ainda no começo da sua carreira, encarregado de Governo do distrito de Cabo Delgado. Mais tarde, em circunstâncias particularmente difíceis, foi Governador da Província de Macau. E mereceu especial menção o longo prazo de três mandatos em que foi Governador-Geral de Moçambique, onde continuam a não ser esquecidos o seu bom senso, a sua integridade e a sua hábil condição dos negócios públicos dessa grande parcela da terra portuguesa. (…) Com o seu desaparecimento perdem o país e a Marinha um dos seus mais ilustres servidores, e os seus camaradas um companheiro e um amigo que profundamente estimavam.”
NA: a fotografia é anterior à sua passagem por Macau onde chegou com 43 anos.

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Foto acima: de Lei Iok Tin – bonecos de massa/farinha à venda na Travessa do Barbeiro/junto à San Ma Lou por altura do ano novo chinês. Hoje já não deve existir, suponho.
Fotos (em cima e em baixo) de José Neves Catela da década 1930/40
Duas ‘marcas’ das celebrações do ano novo lunar: bonecos de ‘farinha’ e mercado de flores: os pessegueiros, a soi u si, as tangerineiras anãs, os narcisos, etc. A primeira imagem é da década de 1960. A segunda é de 1930-40. As cores, não estão lá, mas adivinham-se: vermelho e dourado que simbolizam o dinheiro e a prosperidade.
E depois há os lai mengs, as visitas aos templos, os lai si (envelopes vermelhos com dinheiros que os casados aoferecem aos solteiros), a renovação da decoração lá em casa, romarias aos cemitérios, jantares em família, rebentar panchões, jogar e apostar nos casinos… acabar com as marcas do ano que termina e olhar em frente como se a vida renascesse na primeiro da nova lua do calendário chinês.
Um misto de tradição e superstição que se repete há milhares de anos.

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Perto da rua das Lorchas, ao Porto Interior,

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Neste local exisitia uma antiga ponte-cais. Em 1947 iniciou-se o processo de reconstrução. Fu Tak Lam, comerciante e proprietário, morador no Hotel Central, desejava construí-la por considerar a obra urgentíssima e de grande interesse para o Governo. Charles Lun Chou, engenheiro civil e construtor, assinou o projecto e encarregou-se da obra de demolição da antiga estrutura e da edificação da nova Ponte Cais no. 16. O edifício foi sucessivamente alterado, ampliado e modificado. Mas foi durante muitos anos o principal lugar de chegada à cidade de Macau.
Fotografias de Jack Birns para a Time Life Magazine em 1949:
um ano depois da inauguração da Ponte Cais nº 16 no Porto Interior
 em baixo: o mesmo local na década de 1960