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Conforme relatos de épocas passadas e testemunhos que foram sendo transmitidos até aos nossos dias, sabemos que o Carnaval foi das festas mais alegres e mais amplamente participadas da comunidade portuguesa de Macau. Os “assaltos”, os bailes, as tunas, as máscaras e as brincadeiras dos foliões quebravam completamente a rotina da vida citadina durante alguns dias, mas os preparativos eram feitos, pelo menos, com semanas de antecedência. Foi assim no dealbar e nas primeiras décadas do século XX, perdendo definitivamente a importância a partir da Guerra do Pacífico, não obstante os esforços feitos por agremiações várias para o revitalizar.

Tuna na casa de Lara Reis (hoje Cruz Vermelha) na Av. da República. Foto da Pou Man Lau. Data: ca. 1935

Este curioso relato do Carnaval, cujo autor apenas utilizou a letra “Z” para se identificar, foi publicado na revista “Renascimento”, de Fevereiro de 1944, centrado nos festejos promovidos pelo vetusto Clube de Macau e pelo Grémio Militar (nome antigo do Clube Militar), onde se concentrava a alta sociedade local:

“(…) Ora eu quero dizer-te, Leitor Amigo, (…), o que era esta época de festa, há muitos anos, quando eu era menino e moço, nesta cidade de Macau.”
No sábado gordo, grandes eram os preparativos para o “baile masquée”que começava às 22 horas nos salões do Clube de Macau. Por volta da hora marcada começavam a chegar os convivas em ar festivo, exibindo os mais luxuosos trajes. O salão, primorosamente ornamentado, era um mar de luz: grandes caraças encimavam os espelhos onde, por mão de mestre, eram desenhadas figurinhas alusivas aos trajes dos grupos que, previamente anunciados, viriam exibir-se em danças de conjunto, à hora marcada, que nunca ia além das 24.
O baile era obrigado a casaca ou a traje carnavalesco e, assim, as pessoas idosas apresentavam-se num rigor de “toilette” impecável, capaz de dar assunto para um jornal de modas e ilustrar um manual de etiqueta.
A gente nova cobria-se de brocados, sedas, cetins, tules, gases, crepes variados, em trajes estranhos e imprevistos, policromando o ambiente de modo estonteante.

Baile de Carnaval no Teatro D. Pedro V ca. 1935 – foto de Neves Catela

Uma numerosa orquestra, vinda expressamente de Hong Kong para tocar no chamado baile de gala, colocada a um canto do salão, oferecia aos bailarinos as mais alegres e variadas músicas de dança.

Os decotes, ligeiramente atrevidos, descobriam colos de alabastro esculpidos por mão de grande artista.
No bar, quatro grandes poncheiras de louça da China, ofereciam aos sequiosos os mais variados e primorosos ponches. As serpentinas e os “confetti” polvilhavam o chão dum colorido estranho e perturbador. O baile decorria na maior animação até à 1 hora em que era servida na plateia do Teatro D. Pedro V uma admirável ceia. Um primoroso caldo era como que o rescaldo do incêndio que o bem provido bar provocara até aí. “Maionnaises” de vários mariscos; “galantines de pâté de foie-gras”; carnes frias como capões, faisões, perús, carneiro, vaca, porco, fiambre, língua salgada, veado, caças variadas; croquetes de toda a espécie, pastéis de massa folhada com recheios variados; pastelinhos de massa fina recheados a primor; bolos, doces, pudins e cremes variados; vinho do Porto à descrição, etc.
Ouvia-se então pelas mesas o desarrolhar das garrafas de “champagne” “Pommerie”, “Mum”, “Coquelicot”, etc. e, nesse salão imenso, todo ornamentado a primor com ricas colchas de seda e brocados encantadores, a alegria reinava sem que a mais pequena nota discordante prejudicasse a distinção, que sempre caracterizava tão faustoso baile.
Finda a ceia, as senhoras, pelo braço dos cavalheiros, dirigiam-se ao salão, e o baile continuava até altas horas da madrugada. Domingo gordo rompia sempre alegre, como a noite da véspera. Tunas, organizadas por rapazes foliões, percorriam as ruas da cidade seguidas de mascarados, não sem que uma certa rivalidade existisse no capricho, em que se colocavam, de oferecer a melhor música em marchas escolhidas.
Os mascarados, que seguiam as tunas, eram uma espécie de bonecos de trapos, empenhando-se cada qual em vestir o mais ridiculamente possível. Pequenos grupos isolados de mascarados percorriam as ruas da cidade cantando e brincando, sem que a ordem pública fosse ao de leve perturbada.
As tunas invadiam então as casas das pessoas conhecidas, e tudo era pretexto para tocar, dançar, rir, comer e beber. Na noite desse gordo Domingo, realizava-se o baile de gala no Grémio Militar. Empenhava-se, então, a direcção do Grémio em oferecer aos sócios um baile tão animado e rico como o do Clube de Macau. Tal finalidade, porém, raras vezes era alcançada, e isto devido apenas à pequenez do salão e ao facto de não haver tão grande número de sócios.
Era, no entanto, o baile do Grémio um rico baile de gala, “masquée” também e — oh vaidade feminina! — não se via nele um único traje dos exibidos na véspera, apesar das senhoras serem as mesmas.
Após a rica e opípara ceia, que era servida na sala de leitura, especialmente arranjada e decorada para esse fim, dançava-se até altas horas da madrugada, sempre na maior animação.
Quer no Clube de Macau, quer no Grémio Militar, organizavam-se “matinées” para crianças, festas que constituíam o encanto das mamãs e das crianças, que brincavam loucamente, rasgando e sujando os ricos trajes variados, que exibiam em manifesta competição, afim de alcançarem o lindo prémio, que era oferecido à criança mais bem vestida.

Desfile de tuna no final da década de 1930: foto do espólio de Maria Augusta de Garcia e Figueiredo publicada pelo projecto Memória Macaense

E pelas ruas continuavam as tunas enchendo os ares dos trinados dos bandolins e a passo marcado pelo ferir violento dos bordões dos violões. A segunda-feira de Carnaval era reservada para os assaltos às várias casas particulares, que recebiam principescamente oferecendo aos convidados e aos assaltantes ricas e abundantes ceias regadas com os mais caros e variados vinhos.

Nestas ceias familiares, ceias verdadeiramente pantagruélicas, apareciam sempre os doces próprios da época, à cabeça dos quais figuravam o “ladú” e a “barba”. A alegria parecia não ter fim, e todos viviam felizes. Na terça-feira continuava a folia pelas ruas e as tunas tocavam sem cessar os seus vastos reportórios.
À noite realizava-se no Clube de Macau a “soirée masquée” de despedida, quase sempre por subscrição entre os sócios.
Era esta a festa mais popular e menos cerimoniosa, sendo recebidas as tunas, que eram sempre acompanhadas de mascarados, na maioria muitíssimo desengraçados, ou então extremamente inconvenientes. Era, porém, pouco duradoura a sua passagem pela “soirée”, e a noite seguia alegre e despreocupada até o romper do dia. Bastante à vontade, os sócios apresentavam-se com trajes exóticos e extremamente ridículos, aparecendo alguns que focavam personalidades de destaque, que nunca se davam por achadas. Geralmente era dada tolerância de ponto nas repartições públicas, na parte da manhã de quarta-feira, porque tanto os chefes como os subordinados não estavam em condições de poder trabalhar, devido ao cansaço. (…)”.
Nas décadas de 50 e 60, nos clubes atrás referidos, em escolas e em algumas outras agremiações recreativas, com destaque para o já extinto Clube 1.º de Junho, que tinha boas instalações e localização privilegiada, entre a Rua do Campo e o Jardim de Vasco da Gama, ainda se organizavam animadas festas de Carnaval, mas o seu impacto na comunidade foi sendo, progressivamente, reduzido. Perduraram, porém, na memória de quantos nelas tomaram parte e nos relatos, escritos e orais, que foram sendo passados às novas gerações.

Artigo de Jorge Rangel, pres. do IIM,  publicado no JTM de 7-3-2011