Henrique Senna Fernandes


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O Instituto Internacional de Macau apresentou, durante uma cerimónia incluida no programa do Encontro das Comunidades Macaenses 2010 que teve lugar em Novembro último, o livro “Cinema em Macau”, de Henrique de Senna Fernandes.
Publicado pela primeira vez nos anos 70, sob a forma de uma série de artigos, num jornal de Macau chamado “A Confluência”, e republicado na mesma forma, nos anos 90, na “Revista de Cultura de Macau”, este livro relata a relação de Macau e dos Macaenses com o cinema, no início do Século XX (1900 a 1940).
Quase um romance, com o cinema em Macau como protagonista principal, este livro descreve as reacções de um público macaense ávido de cinema, enquadrado num contexto histórico e social, do início do Século passado, as salas de cinema míticas, e as personagens líricas da sociedade macaense da altura, todos intervenientes num ambiente digno de registo nesta forma, e mais ainda, pelo génio literário de Henrique de Senna Fernandes.
O livro foi apresentado pelo filho do autor, Miguel de Senna Fernandes, numa cerimónia onde foram apresentados mais seis livros publicados pelo IIM e dos quais darei conta em breve.
Teatro Capitol nos anos 30.
Um bilhete custava entre 20 e 80 avos, consoante fosse de 1ª, 2ª, 3ª classe, crianças ou galeria.

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Inicio com este post algumas memórias avulso deixadas em diversas entrevistas por Henrique de Senna Fernandes. Este post refere-se à sua primeira viagem a Portugal para onde foi estudar, direito, em Coimbra. Terminara o Liceu em 1942 mas as circunstância da guerra obrigaram-no a ficar no território por mais cinco anos a trabalhar.
“A minha primeira viagem a Portugal foi no segundo transporte que se fez de Macau para lá, depois da grande guerra (1947). Foi no velho Lourenço Marques. Gastámos cinquenta e tal dias de viagem. O barco tinha um grande arcaboiço para resistir às ondas, mas era muito sujo. Nós, os estudantes, íamos em terceira classe suplementar. Parece que estou a ver aquele reboliço no fundo do barco, onde estávamos todos misturados com os soldados que tinham terminado a sua comissão, depois da guerra. Era como que um transporte de refugiados. Passámos por coisas horríveis! O barco era lento e tão lento que nós dizíamos que ele andava três metros por segundo, recuava dois e avançava portanto um metro. Apanhei a monção do Índico. Quando chegámos a Colombo e a Cochim já havia a ideia de uma revolta e desembarcámos num bairro indiano. Fiquei com uma péssima da Índia porque só vi misérias.”

De acordo com o anúncio da empresa publicado na revista O Mundo Português, número 86, de Fevereiro de 1941, a Companhia Nacional de Navegação mandou construir na década de 1930 quase vinte mil toneladas, correspondentes aos navios Quanza (6.000), S. Thomé (9.100), Inharrime (1.665) e Tagus (1.600). O anúncio informa ainda que, no início desse ano, a CNN dispunha também dos navios Nyassa (9.000), Angola (8.300), Cubango (8.300), Lourenço Marques (6.400), Cabo Verde (6.200), Congo (5.000),Luabo (1.385), Chinde (1.382) e Save (763). Em Moçambique prestavam serviço costeiro as unidades Chinde, Luaboe Save, destinando-se o navio Inharrime ao serviço de cabotagem.
Os navios Angola, Nyassa e Quanza serviam a linha rápida da África Oriental, destinando-se os navios Lourenço Marques e S. Thomé à linha rápida da África Ocidental. As unidades Cabo Verde e Cubango desempenhavam serviço de carga também na África Ocidental.
Dos restantes, o navio Tagus prestava serviço de cabotagem entre o Porto e Lisboa e o navio Congo encontrava-se de reserva em Lisboa. O serviço de carga e passageiros para a África Oriental partia mensalmente de Lisboa no dia 30 e o serviço para a África Ocidental tinha também a mesma periodicidade, partindo no dia 6 de cada mês.

Postal de ca. de 1950

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Nascido em Macau em 1923, Henrique de Senna Fernandes sempre se orgulhou de ser um dos poucos habitantes de seu país – colonizado pelos portugueses durante séculos e que só em 1999 passou novamente ao domínio da China – a fazer literatura. Nesse círculo intelectual praticamente inexistente, que pouco contribuía para a divulgação de seus autores, Senna Fernandes destacou-se e sua literatura ultrapassou as fronteiras do pequeno país. No Brasil, a editora Gryphus lançou “Nan Van”, “Amor e dedinhos de pé” e mais recentemente “A trança feiticeira”. O escritor morreu no início de outubro, depois de um longo período de doença. A entrevista a seguir foi feita por Miguel Conde há vários meses. Por conta do seu estado de saúde já frágil, o autor demorou a responder e a conversa acabou não sendo publicada na época.
Quando o senhor começou a escrever? Sempre escreveu em português?
Comecei a escrever desde os meus onze anos e sempre em português, pois embora em Macau a comunidade portuguesa local entendesse o chinês (ou melhor, o dialecto de Cantão), não o domino a ponto de me exprimir nessa língua. Foi sempre em prosa, sob forma de contos. Cheguei a publicar nos anos 40 do século passado no semanário diocesano “O Clarim” três contos, infelizmente não fiquei com nenhuma cópia.
Que autores de Macau estiveram entre suas primeiras leituras? E autores brasileiros?
Os autores macaenses foram sempre muito esporádicos. Em Macau nunca houve condições para desenvolver uma verdadeira literatura macaense. A pequenez do território e, por conseguinte, da comunidade portuguesa, aliada ao facto de Macau ter uma parca importância para Portugal, não proporcionava a existência de uma comunidade literária. Por isso, as minhas leituras não começaram com autores locais. Sempre tive uma admiração pelos autores brasileiros. A forma ‘despreendida’ de se escrever português, quase como brincando com a língua de Camões, pondo e dispondo das suas palavras, deram-me uma visão completamente diferente do que ela pode ser, levando-me à sua autêntica redescoberta. Machado de Assis, Erico Verissimo, Gilberto Freyre e Jorge Amado marcaram presença nas minhas leituras.
Escrevendo em português num pequeno país ao lado da China, o senhor se sente de alguma forma solitário?
Sempre me senti solitário nessa senda da escrita em português, na Ásia. A falta de incentivo e a indiferença do público desencorajavam sobremaneira quem tivesse o sonho de cingrar pela escrita. Atrevo-me a dizer que escrever em português neste canto do mundo é puro desporto, que só a paixão o pode justificar. Quem tenha pretensões para voos mais elevados, a escrita em português não lembraria o diabo! Mas a verdadeira solidão está no facto de não haver uma literatura portuguesa, na acepção mais comum da palavra. Existiram sempre escritores em língua portuguesa, mas em Macau nunca houve uma comunidade literária portuguesa. Os livros que se leem em Macau são de autores oriundos do exterior. Durante a administração portuguesa houve uma actividade editorial mais intensa. Não obstante ter havido publicação de obras de natureza vária, estava-se longe de se falar de uma literatura macaense. Neste ambiente, escrever é penosamente solitário. O que vale é a paixão e a persistência em construir o meu espaço, o meu mundo, em que eu me sinta plenamente realizado.
O fato de tematizar com frequência casos de amor entre macaenses e chinesas fez com que o senhor sofresse algum tipo de censura?
Talvez. Há que entender que em Macau, não obstante a administração portuguesa ter perdurado durante séculos, as comunidades chinesa e portuguesa em regra não se misturavam. Viviam paredes meias uma com a outra, mas o cruzamento das gentes era tabu, quer para uma, quer para a outra. Tendo eu nascido no seio de uma comunidade católica e muito conservadora que foi a comunidade macaense luso-descendente, não era fácil abordar o tema de amor entre macaenses e chinesas. E de certa forma fui censurado. Todavia, isso não me demoveu, antes, pelo contrário, me incentivou a apaixonar-me por este tema, pois, contra tudo e contra todos também eu me casei com uma chinesa.
Como a transferência de Macau para administração chinesa mudou a vida dos macaenses?
A transferência trouxe mudanças para a comunidade portuguesa de Macau. De um modo geral, não se pode queixar muito. Se historicamente o luso-descendente tinha um papel de intermediário entre chineses e portugueses, com o retorno de Macau à República Popular da China o seu papel adquiriu um cunho diferente. O macaense (luso-descendente) é um tradutor nato, característica que continua a manter. Todavia, agora ele é instrumento vivo para a aproximação da Grande China aos países lusófonos, entre os quais se destaca o Brasil. A administração chinesa em Macau soube ao longo desses dez anos manter o espaço natural da comunidade portuguesa e dar voz às suas manifestações culturais. Nesse aspecto, apesar de as mudanças poderem ser do desagrado pontual de alguns, elas revelaram-se benéficas para a comunidade.
Qual o atual estado da literatura em língua portuguesa em Macau? Há muitos outros autores escrevendo em português?
Infelizmente, há poucos que escrevem em português aqui em Macau. E há muito que não se realizam lançamentos de obras de autores locais. Não existe uma comunidade de escritores em língua portuguesa de Macau, o qual por isso mesmo torna parca ou mesmo inexistente uma literatura macaense, com todo o respeito por todos os que, como eu, fazem da pena a sua sublime paixão.
O senhor pretende aderir às normas do acordo ortográfico da língua portuguesa? O que pensa dessa meta de padronização da ortografia da língua?
Ainda não me sinto atraído pelo fulgor da “unificação” da língua. Sou um ortodoxo no que respeita à ortografia. Não menosprezo a utilidade da sua padronização. Há que reconhecer que os escritores de Portugal possam extrair daí algum proveito, apenas no sentido de que as suas obras possam ser apreciadas pelo grande público brasileiro, sem terem de passar pelo crivo da prévia revisão ortográfica pelas editoras do Brasil, como tem acontecido até à presente data. Quanto a mim, a língua é meu instrumento de criação e obvimente é algo com que tenho que me identificar. O português do novo acordo ortográfico não é a minha língua, e desta feita, vou mesmo ter que correr o risco de me considerar mau escritor.
in “O Globo” suplemento Prosa & Verso 25-10-2010

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29 de Outubro, a partir das 14h30 na Casa de Macau de Lisboa, Av. Almirante Gago Coutinho, n. 142 organizado pelo CETAPS (Centre for English, Translation and Anglo-Portuguese Studies), FCSH, Universidade Nova de Lisboa/FCT.
Entre as 14.30 e as 18.30 horas serão apresentadas várias comunicações sobre a obra literária e as mais variadas dimensões da vida do autor, bem como testemunhos pessoais. Serão ainda lidos poemas dedicados a Henrique de Senna Fernandes por poetas de Macau e portugueses. Uma parte dos participantes, mesmo não podendo estar presente enviou os seus textos para serem lidos.
14.30h Sessão de abertura
João Paulo Ascenso Pereira da Silva, Vice-coordenador do CETAPS
Gustavo Augusto de Senna Fernandes, Presidente da Casa de Macau, Lisboa
14.40h Sessões contínuas:
– Ana Paula Laborinho (Instituto Camões, Portugal): Testemunho pessoal
– Rodrigo Leal de Carvalho (escritor): “O Henrique e Eu”
– Vanessa Sérgio (Universidade de Paris Ouest Nanterre La Défense): “Henrique de Senna Fernandes, Um Incansável Contador de Histórias”
– David Brookshaw (Universidade de Bristol): “Senna Fernandes em Londres”
– Maria Antónia Espadinha (Universidade de Macau): “”Conhecer Macau pela Mão de Henrique de Senna Fernandes”
– José Carlos Venâncio (Universidade da Beira Interior, Portugal): “O Escritor do Inconformismo Macaense: Henrique de Senna Fernanades”
– Mónica Simas (Universidade de São Paulo, Brasil): “Macau, Identidade Além do Tempo”
– Gustavo Infante (Universidade de Bristol): “‘Nan Van’: Contos-Lugares de Memória”
– Beatriz Basto Silva (Portugal): Testemunho pessoal
– Michela Graziani (Universidade de Florença, Itália): “Nam Van e a Essência de Cereja. O Sentido da Amizade em Henrique de Senna Fernandes”
– João Basto Silva (Portugal): Testemunho pessoal
– Lurdes Escaleira (Instituto Politécnico de Macau): “Henrique de Senna Fernandes: Um Legado a Não Esquecer”
– João Botas (jornalista, investigador, autor do blog Macau Antigo): Testemunho pessoal
– Lúcia Lemos (fotógrafa e autora da fotobiografia O Olhar de Henrique de Senna Fernandes: Fragmentos, Macau): “Quatro Anos”
– Henrique J. Manhão (Casa de Macau, Califórnia, Estados Unidos da América): “Dr. Henrique de Senna Fernandes – Homem Extraordinário”
– Miguel de Senna Fernandes: Testemunho pessoal
16. 30h Intervalo
– Celina Veiga de Oliveira (Sociedade de Geografia de Lisboa, editora e investigadora): “O Conto na Obra de Henrique de Senna Fernandes”
– António Estácio (Portugal): “Na Peugada de Henrique de Senna Fernandes”
– Margarida Duarte (Instituto Camões): “Ver o Outro – A Pedagogia do Olhar”
– Leonor Diaz de Seabra (Universidade de Macau): “Testemunho (de Amizade)”
– Joseph Abraham Levi (George Washington University, Estados Unidos da América): “Henrique de Senna Fernandes (1923-2010): Um Vulto, um Povo, uma História”
– Vítor Serra de Almeida (Sociedade de Geografia de Lisboa): “O Papel do Dr. Henrique de Senna Fernandes no Ensino em Macau: Os Anos do Liceu Nacional Infante D. Henrique”
– Perpétua Santos Silva (CIES/ISCTE-IUL): “Breve Olhar Sociológico sobre a Obra de Henrique de Senna Fernandes”
– António Graça Abreu (Portugal): Testemunho pessoal
– Rogério Miguel Puga (CETAPS): “Amor e Dedinhos de Pé: Um Bildungsroman Duplo”
18.30h Cerimónia de encerramento:
Yao Jingming (Universidade de Macau): Leitura dos poemas “Baía” e “Filho da Terra”.

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O último adeus a Henrique de Senna Fernandes aconteceu este fim-de-semana com as exéquias fúnebres que levaram muitos dos residentes de Macau a deslocarem-se à igreja de São Lázaro e à Sé Catedral para uma homenagem sentida ao escritor macaense. Um dos testemunhos que solicitei  para o Blog sobre HSF  a pessoas que o conheceram de perto foi Rodrigo Leal de Carvalho.
Fechada a última página da capítulo vida, é preciso começar desde já delinear e efectivar o perpetuar da sua memória e o honrar do seu legado. É este o grande desafio e responsabilidade que se coloca a todos em Macau, governantes e governados, chineseses, macaenses e portugueses. Estátuas, nomes de rua, seminários, bolsas de investigação e, acima de tudo, uma marca na História de Macau que é preciso ensinar aos jovens.
Por mim, vou fazendo o que posso, casos da publicação de testemunhos que passaram ao lado da imprensa local…

HENRIQUE E EU

A notícia da morte do Henrique de Senna Fernandes apanhou-me de chofre. Abalou-me forte e relembrou-me que também eu estou já na linha da frente para a grande viagem; mas teve o mérito de me trazer à memória dias passados cuja recordação o tempo, esse comparsa cruel e inabalável de todos nós, ia fazendo esquecer.
Quando, há mais de 50 anos, passageiro do ferry Tai Loy, desembarquei pela primeira vez em Macau como jovem delegado do procurador da República, o Henrique, então substituto nomeado e em exercício nesse cargo, estava à minha espera, com outros profissionais do foro, na Ponte-Cais nº 16, ao Porto Interior. E a partir de então desenvolveu-se uma saudável amizade, alimentada pela convivência profissional e, mais ainda, por uma afinidade de interesses que até então raramente tinha encontrado nas minhas deambulações por esse mundo de Cristo e do Império: para além das questões profissionais, o mesmo gosto pela literatura, pelo cinema, pela História e pela vivência de um passado de Macau que eu não vivera mas que falava alto à minha imaginação de romancista (então apenas em potência ), e até pela saborosa culinária local, alimentavam largas horas de amena cavaqueira, no meu gabinete, na mesa do Solmar ou até no seu gabinete, ali à Almeida Ribeiro, mesmo na esquina com uma Travessa de cujo nome já me esqueci.
Foi ele quem me abriu o álbum de recordações macaístas que ainda hoje folheio com saudade. Com a sua generosidade tipicamente macaense, abriu-me as portas da sua casa – vivia então e ainda na casa dos pais, (pessoas encantadoras de quem me tornei amigo por direito próprio), na Rua da Penha da cidade cristã – e me iniciou em inúmeras histórias reais ( ou porventura temperadas pela sua viva imaginação de romancista, já então sobejamente revelada em livros publicados: “A-Chan, A Tncareira”, ou a publicar: “Amor e Dedinhos de Pé” e a “A Trança Feiticeira”.
Mas ainda mais do que estes romances, objecto depois de tratamento cinematográfico em fitas do mesmo nome, encantaram-me as crónicas regulares que escrevia para o então “Notícias de Macau”: críticas de filmes, pequenos estudos sobre escritores que eu também tinha lido, recordações da guerra do Pacífico, ou de um passado macaísta que eu não vivera, mas com tão vívida nitidez que me parecia perceber-lhe a cor, os cheiros, os ruídos e os sabores de Macau, a minha pátria de adopção.
Por tudo isto – e por muito mais que as escassas linhas deste “ad memoriam” me não permitem alargar – estou-te, Henrique, muito grato e saudoso. Para toda a família – e em particular para o Miguel, seu primogénito – a minha amizade e as minhas sinceras condolências.
Rodrigo Leal de Carvalho
RLC é Juiz Conselheiro do Supremo Tribunal de Justiça, na situação de jubilado. Nascido em 1932 nos Açores, viveu em Macau entre 1959 e 1999 (com pequenos interregnos).
A sua faceta de escritos levou-o a escrever até hoje oito livros onde Macau está sempre presente: Requiem por Irina Ostrakoff (1993) ; Os Construtores do Império (1994) ; A IV Cruzada (1996) ; Ao Serviço de Sua Majestade (1996) ; O Senhor Conde e as Suas Três Mulheres (1999) ; A Mãe (2000) ; O Romance de Yolanda (2005) ; As Rosas Brancas do Surrey (2007).

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O falecimento do Dr. Henrique de Senna Fernandes ocorrido na manhã de 4 p.p., obriga-me, por dever de consciência, a manifestar uma modesta e sentida homenagem para com quem me serviu de referência na minha vida.Tive o grato privilégio de o conhecer, de com ele trabalhar e conviver, primeiramente como seu aluno e, mais tarde, já adulto, em termos profissionais.
Fotografia publicada na edição especial do Jornal Tribuna de Macau de 5-10-2010 dedicada a HSF
Na qualidade de aluno do Liceu e numa altura em que a maior parte dos docentes eram considerados “inacessíveis e distantes”, o Dr. Henrique era humano, amigo dos seus alunos e sempre muito compreensivo para com os nossos problemas; nas suas aulas de História e Filosofia, havia sempre um espaço para as “histórias” da sua vida académica em Coimbra. Recordo-me como absorvíamos as descrições que ele fazia, sempre com enorme entusiamo, sobre a vida quotidiana dos estudantes universitários, as festas estudantis (Latadas e Queima das Fitas), bailes e namoricos, tudo para nós, motivo de grande curiosidade e novidade. Para além disso, era também o “elo” de ligação alunos-Reitoria em tudo quanto dizia respeito às actividades extra-curriculares: torneios e jogos desportivos, festas de Carnaval, passeios escolares, visitas de estudo, bailes, etc.. Era ele o responsável perante o Reitor. Obviamente que tudo isso marcou a juventude escolar que com ele conviveu.
Mais tarde, já adulto, e sobretudo quando fui substituí-lo na Direcção da Escola Comercial “Pedro Nolasco”, passámos a trabalhar mais de perto, uma vez que o Dr. Henrique era então Presidente da APIM (Associação Promotora da Instrução dos Macaenses), entidade responsável pelo funcionamento da Escola. Aí tivémos, durante cerca de 20 anos, um trabalho muito próximo e salutar em prol das necessidades da Escola e alunos e onde pude constatar o homem bom e superior que ele era. Sempre em sintonia com as orientações que lhe apresentava, foi invariavelmente compreensivo e amigo de todos.
Macau perdeu um grande Homem, prestigiado advogado, escritor reconhecido da Literatura Portuguesa e professor de várias gerações de jovens; foi sempre uma referência e defensor da comunidade macaense.
Os meus sentidos pêsames para a família e Paz à sua alma. Coimbra, 5 de Outubro de 2010
João Bosco Basto da Silva
NA: Depoimento solicitado a João B. B. da Silva no dia em que tive conhecimento da morte de HSF.

>A obra representa um “legado importante”, constituído por artigos que o escritor foi publicando na Revista de Cultura, do Instituto Cultural. Os artigos foram compilados e serão apresentados sob uma “forma nova e com uma possibilidade de divulgação maior do que teve no passado”, revelou o Presidente do IIM.

O Instituto Internacional de Macau (IIM) tem um livro quase pronto que versa a feição cinéfila de Henrique de Senna Fernandes, com publicação prevista “até ao fim do ano”, revelou ontem Jorge Rangel.
Os textos versam a história do cinema em Macau, dado que Henrique de Senna Fernandes ”era também um estudioso do cinema e um homem que sentia um grande entusiasmo pelo cinema, que conhecia profundamente”, explicou Rangel. “O cinema teve uma importância muito grande em Macau. De acordo com as estatísticas das Nações Unidas, há cerca de 50 anos onde se ia mais ao cinema era em Macau. As salas de cinema estavam sempre cheias, havia um número invulgar de salas de cinema espalhadas pela cidade e ele coleccionava os programas, artigos de jornais e tudo o que havia sobre cinema”, continuou.
A obra poderia já ter sido publicada, mas a delonga será aproveitada pelo IIM para prestar uma homenagem ao escritor aquando do lançamento, em data a anunciar brevemente: “O livro atrasou-se um bocadinho, podia já ter saído e se calhar até foi bom não ter saído. No dia de lançamento do livro esperamos ter aqui muita gente da comunidade macaense para lhe prestarmos uma sentida e justíssima homenagem”, revelou Jorge Rangel.
Fotografia do JTM com HSF numa entevista em 2004
Reprodução de uma notícia da autoria de Paulo Barbosa publicada no Jornal Tribuna de Macau  (JTM) de 5-10-2010; neste dia o jornal dedicou grande parte das suas páginas a HSF.

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