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É a “feérie lúdica que Macau representa” que Ana Maria Amaro procura registar na sua obra “Jogos, Brinquedos e outras Diversões de Macau”. A sinóloga está a ultimar a segunda parte do livro, que conta publicar ainda no primeiro semestre do ano, em edição de autor, mas com o apoio da Fundação Macau e, talvez, da Fundação Jorge Álvares. Com prefácio do jornalista João Botas, o volume terá cerca de 700 páginas e surge complementado por fotografias e ilustrações da época.
Nele são descritos pormenorizadamente jogos de azar (incluindo o ‘fan tan’ e jogos de dados), jogos de cartas e dominós, adivinhas populares de Macau (de tradição oral e impressas), puzzles e jogos relacionados com práticas divinatórias.
Nascida em 1929, a autora é professora catedrática jubilada do Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas da Universidade Técnica de Lisboa e também presidente do Instituto Português de Sinologia (criado em 2007). Tem vindo a estudar a China e Macau há mais de 50 anos, desde que veio viver para o território, onde permaneceu entre 1957 e 1973. O primeiro tomo de “Jogos, Brinquedos e outras Diversões de Macau” foi publicado em 1976, mas já estava esgotado nos anos 80. É dedicado aos jogos populares de Macau entre as crianças, enquanto os dois volumes da segunda parte da obra centram-se nos jogos que preenchem – ou preenchiam, dado que alguns deles caíram em desuso – os tempos lúdicos da população adulta.
Jogo de Fant Tan em desenho de Felipe Emilio de Paiva em 1902
O hiato de tempo entre as duas partes desta obra quase enciclopédica deve-se ao facto de manuscritos terem estado em Macau “durante muitos anos” para publicação, pelo Instituto Cultural e por uma editora local. A ideia foi sendo protelada e parte das ilustrações perderam-se, pelo que a autora decidiu tomar em mãos o projecto. Se já é certo que o primeiro volume da segunda parte vai ser publicado, ainda não está totalmente garantido o financiamento do segundo volume, onde são descritos mais de 40 jogos de tabuleiro e “outras diversões”, culminando a obra com uma investigação sobre a ópera de Cantão. É bastante provável, no entanto, que este trabalho venha a ser patrocinado pelo Albergue da SCM, dado que inclui referências às lanternas do coelhinho. Para reunir apoios para a publicação, que tem muitas ilustrações e é onerosa, será organizado um lançamento público da primeira parte, em Lisboa. A autora refere que alguns dos 500 exemplares serão vendidos na RAEM, mas está posta de parte uma visita sua, para fazer a apresentação localmente. Por opção pessoal, Ana Maria Amaro não quer voltar a Macau, apesar de acompanhar regularmente as notícias do território. “Macau já não é a minha Macau” – aponta – e um regresso iria ser “uma desilusão”.
Em declarações ao JTM, a autora recorda que, quando veio para Macau, se sentiu pouco estimulada pela vida social da comunidade portuguesa então residente no território. Motivada por uma “curiosidade imensa” em perceber a cultura chinesa que via pelas ruas, aprendeu a falar cantonense e procurou uma Associação de Artes Marciais chinesas, um mundo onde o mestre Pun Su Sam foi o seu guia. Paralelamente, surgiu o interesse pelos jogos, que motivou uma recolha exaustiva de materiais – tais como baralhos ou tabuleiros – e testemunhos orais. “Não fiz mais nada nos tempos livres (…) Pedia às pessoas para descrever como é que se jogava. Os chineses achavam muita graça ao facto de querer jogar com eles e aprender com eles”, descreve a académica, frisando a dificuldade de alguns dos jogos com que se deparou: “Os carteados não são nada fáceis, são sequências e sequências. No caso dos jogos de tabuleiro, é ainda pior.”
Ao longo dos 16 anos em que viveu na região, Ana Maria Amaro foi “apanhando no terreno coisas que se estão a perder”, não só em Macau, mas em vários locais da China. Tais como, por exemplo, um jogo que viu ilha de Lama [em Hong Kong], em que os jogadores rasgavam as cartas depois de as usarem. 
Perguntas e Respostas: década 1970
Na nota prévia à edição que está em fase de publicação, a investigadora considera que a “simplicidade do primeiro volume” foi tida como o modelo para os seguintes. “A simplicidade será, pois, o traço de união entre os dois trabalhos. E isso porque foi o povo simples de Macau que nos ensinou como, ali, se jogava; como ali, se ocupavam os tempos livres”, escreve. Para Ana Maria Amaro, em Macau os jogos – por regra disputados a dinheiro e não unicamente origem chinesa -, são “algo que domina as pessoas como passatempo”, e até como compensação para as agruras do quotidiano: “Alguns daqueles que jogavam em Macau esqueciam, através do jogo, o próprio desemprego, o desenraizamento, ou , por vezes, até, a fome: fome de arroz, de afecto, ou de estupefacientes. É que o jogo, de certo modo, e em certas condições, desempenha também um notável papel psico-profiláctico, além de indiscutível indicador social”, analisa a autora.
Jogando Seng Kwan Tou nos anos 60 na Areia Preta
O fervor pelo jogo é particularmente vivo durante as comemorações de ano novo, quando os “os chineses jogam para atrair a sorte, procuram abrir o ano novo com sorte”, como descreve a autora na já referida nota prévia: “No Ano Novo Lunar, é o jogo que reina em Macau. É o jogo que prenuncia a boa sorte e a abastança no ano que vai entrar. É o jogo o áugure mais procurado quando o ano abre, com o abrir das flores de pessegueiro e das flores de ameixieira. Joga-se no casino, em casa, na rua, na loja de tomar chá; tão bem sobre um caixote, como sobre um pano de feltro ou de flanela verde. Jogam xadrez os anciãos, à sombra amena das árvores dos jardins e esquecem o seu Outono. Jogam as crianças, também, xadrez, ingenuamente, sobre um papel que colocam no chão, preparando o êxito do seu Outono futuro. Jogo, jogo, jogo!”.
Artigo publicado no JTM de 7-4-2011

em cima: tabuleiro de Pat Sin
em baixo: sequência de imagens publicadas num artigo sobre o jogo em Macau na década de 1930 pela revista francesa L’Illustration: “Un Monte Carlo Populaire en Extrême-Orient”
  

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Esta é provavelmente a primeira maqueta/proposta arquitectónica para o que viria a ser o Hotel/Casino Lisboa. Em 1962, o novo espaço ainda não tinha sido baptizado, e seria bem diferente o resultado final. (ver imagem abaixo)
Numa ‘acção de charme’ junto do novo governador (desde Abril de 1962 a Novembro de 1966) Stanley Ho “director-geral, cumprimenta e saúda Sua Exa. o Governador Ten-Cor. António Lopes do Santos desejando-lhe um feliz e próspero governo”. 
Lopes dos Santos e Stanley Ho ‘mudaram’ a face do jogo e turismo de Macau: o primeiro atribui-lhe o monopólio do jogo – em 1962 – (que estava numa família chinesa há muitos anos) e aumentou muitíssimo as receitas para os cofres do governo; e o segundo ‘ocidentalizou’ os casinos ajudando a colocar Macau no mapa do turismo mundial cuja oferta hoteleira aumentou de forma significativa.
O “Lisboa”, apesar de mais conhecido, não é o primeiro hotel de Stanley Ho em Macau. Essa honra coube ao hotel Estoril. (será por isso que está há vários anos abandonado mas ainda não foi demolido?)
Hotéis Estoril e Lisboa: os primeiros do ‘império’ da STDM (fotos década 1970)
 
Bowling no hotel Lisboa: ca. 1978