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“Da cadeirinha ao automóvel, da sampana ao jactoplanador”. A 1ª edição é de 1990. Foi reeditado pelo Instituto Internacional de Macau em 2011, numa tiragem limitada e a propósito de uma homenagem ao prof. Jorge Cavalheiro. O Prof. chegou aos 9 anos a Macau e por lá tem estado até agora altura em que regressa às origens. No entanto garante que esta partida “não é um adeus, mas um até já”.
Foto Arquivo JTM

Em Abril de 2011, com Jorge Rangel, presidente do IIM
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Porque Macau não é nem nunca foi só jogos de casino…
A apresentação do livro “Jogos, brinquedos e outras diversões populares de Macau” 2ª parte – I volume”, decorre dia 22 de Junho na DECM – Av. 5 de Outubro, 114 Lisboa.
Foto de João Botas – Macau, Jardim de Camões, 2009

Prefácio que a prof. Ana Maria Amaro me convidou a escrever para o livro…

“Macau é uma recordação agridoce”*
Em Outubro de 2010 ao receber o convite para escrever este prefácio a minha primeira reacção foi de total surpresa. “Não se terá enganado”, escrevi eu na resposta à Prof. Ana Maria Amaro, contrapondo que existiriam pessoas mais habilitadas já que me faltava “engenho e arte” para tão árdua empresa.
E agora? Como se escreve um prefácio? Ainda para mais de um livro escrito por uma professora catedrática jubilada?… Segundo Confúcio, reconhecer que não se sabe já é saber alguma coisa. Por agora, nem tudo estava perdido.
Ultrapassado o impasse e aceite o convite veio-me à ideia a imagem da capa do livro “Jogos, brinquedos e outras diversões populares de Macau”, uma gravura-aguarela (século XIX) de motivos chineses – representa um grupo de chineses jogando chiquia (bater a andorinha – ta yin) – muito colorida com traços de contorno a preto. Já tinha estado com aquele livro nas mãos ainda nos meus tempos de juventude em Macau mas será que o tinha na minha mini biblioteca dedicada a Macau? Infelizmente, tinha outros dois livros da sua autoria, mas esse não.
Eu e a autora vivemos em Macau em épocas distintas e com idades bem diferentes. Ela entre 1957 e 1972 já adulta. Eu na década de 1980 ainda adolescente. Ainda assim, algo nos ligava: o Liceu Nacional Infante D. Henrique, onde ela foi professora e eu fui aluno. E o fascínio por Macau e pela sua história.
Foi por causa disso quem em 2007 escrevi um livro sobre a história do Liceu e em 2009 criei o projecto Macau Antigo: http://macauantigo.blogspot.com, um blog onde Ana Maria Amaro é uma presença constante devido ao seu trabalho em prol da divulgação da cultura macaense.
Ou seja, sabia quem era e o que tinha feito, mas não conhecia Ana Maria Amaro. E foi desta forma que a ‘descobri’ como Presidente do Instituto Português de Sinologia. No final de 2009 realizei uma série de 25 entrevistas para o Jornal Tribuna de Macau a convite do seu director José Rocha Dinis. A ideia era assinalar o 10º aniversário da transferência de soberania de Macau, ocorrida em Dezembro e 1999. O critério utilizado na selecção dos entrevistados era muito simples: pessoas que se tivessem destacado na vida cultural do território e que vivessem na altura em Portugal. Por vicissitudes diversas muitas das entrevistas foram feitas via e-mail. A de Ana Amaro foi disso exemplo.
Numa longa entrevista amplamente ilustrada com fotografias da época fornecidas pela própria, abordaram-se diversos temas, nomeadamente os seus livros. Perguntei sobre os que tinha escrito e sobre os que ainda queria escrever. Eis algumas respostas:
Tenho dois livros por publicar com muito mais informação e um terceiro que está no prelo e é uma continuação do 1º volume de ‘Jogos e Brinquedos (…)’ que foi publicado em 1976 e mostra como eu ocupava o meu tempo em Macau para além das aulas.”
Instada a mencionar qual o seu livro preferido, respondeu assim: “Merecem-me especial destaque os dois que estão inéditos à espera de editor ou de apoios financeiros das Fundações interessadas em estudos sobre Macau/China.”
A entrevista foi lida e os apoios chegaram. Era mais um exemplo acabado daquilo que me levou a enveredar pelo jornalismo ainda adolescente, ainda em Macau: relatar factos, intermediar, alertar consciências… fazer a diferença. Hoje, tenho a sorte (e espero que também o mérito) de fazer aquilo que gosto e a mesma ilusão de juventude: a de que aquilo que faço serve para alguma coisa. Aqui está, portanto, a razão do convite que me foi feito para escrever estas linhas. É uma honra mas é ainda maior a responsabilidade. Em especial para um ‘analfabeto’ nos domínios da Antropologia ou Etnografia.
A presente edição é a continuação – se assim se pode dizer – do livro publicado em 1976 pela Imprensa Nacional de Macau. Apesar de muitas vezes persistir a informação de que o livro foi editado em 1972 (p.e., na Biblioteca Nacional), na verdade esse número corresponde ao ano em que a autora regressou a Portugal e o livro “foi deixado na gráfica”. Preciosismos à parte, certo é essa edição esgotou poucos anos depois e que hoje só se consegue encontrar numa daquelas livrarias/antiquário a 50 euros cada exemplar!
É nessa primeira edição que ‘aparece’ o “lárgà sarangum”, luta de papagaios. Recordo, a propósito, um excerto de um texto desse ilustre macaense, Henrique Senna Fernandes, recentemente desaparecido do mundo dos vivos:
“(…) Outro passatempo existia no Verão que era a largada do papagaio de papel também chamado o ‘sarangong’, preso à linha, esta de antemão preparada e tratada por uma massa de farinha, gema de ovo e vidro em pó que a tornava cortante. Assim se desafiava outro papagaio para um despique que se reduzia em ver quem cortava a linha do outro. Era o excitante ‘corta-corta’ que tanto entusiasmo produzia entre adolescentes e adultos que o céu de Macau, nas tardes prolongadas de verão, se enchia de ‘papagaios’ de diversas cores, para lutas renhidas. Empregavam-se estratégias, era uma pugna leal, havia verdadeiros campeões que eram galardoados pela admiração geral. Nisto se consumia a boa gente de Macau, num passatempo saudável e inocente, que traduziu bem a época ligeira e despreocupada em que se vivia, com a certeza de que o dia de amanhã seria igual ao dia de hoje.”
Nesta edição do século XXI não aparece o ‘sarangong’ mas estão lá centenas de exemplos de jogos e tradições populares macaenses. O trabalho de campo foi todo feito em Macau durante os mais de 15 anos que a autora ali viveu e trabalhou como professora. “Depois em Portugal levei alguns anos em trabalho de Biblioteca. Os conteúdos são todos novos e ilustrados, grande parte, a cores. Acabei de o redigir em 1998.” Mais de uma década se passou e finalmente esta obra de recolha etnográfica exaustiva (dividida em dois volumes com cerca de 600 páginas) vê a luz do dia. Uma luz que me ajudou a esclarecer partes da realidade que conheci em Macau há cerca de 20 anos.
Recordo-me de ficar intrigado ao ver junto à pequena muralha da Praia Grande, junto ao antigo Liceu, aquele jogo de xadrez (de peças pretas e vermelhas) com que os ‘velhotes’ matavam o tempo debaixo das acácias rubras. Hoje sei que se tratava do ‘Cheong Kei’, um jogo de origem milenar, inspirado na estratégia de guerra. Diferente do xadrez ocidental.
Nas muitas pesquisas e contactos que tenho feito para colocar conteúdos no blog Macau Antigo temas como as tradições da comunidade macaense (aqui incluo todos) têm despertado muito interesse e participação activa dos leitores. Foi assim que fiquei a saber um pouco mais sobre por exemplo o ‘talu’ e o ‘bafá’. O ‘bafá’ é um jogo de cartas muito em voga em Macau até às primeiras décadas do século XX, hoje praticamente esquecido. Já o ‘talu’ era jogado com dois paus, um que batia no outro, mais pequeno e afiado das pontas, como se de um lápis se tratasse. Ganhava o que conseguisse bater no pau sem ele cair ao chão, atingindo uma determinada distância em passos. Este jogo terá chegado a Macau pela mão dos jesuítas no início do século XVIII e manteve-se vivo até ao início do século XX. Em Portugal era conhecido por bilharda.
Muitos dos jogos e tradições abordados neste livro ou já desapareceram dos hábitos do quotidiano ou estão em vias disso muito por causa da diáspora do povo macaense e da voragem do tempo. Também por isso, este livro é imprescindível. Até para os que, ainda vivos, já quase os esqueceram. Cabe à actual geração de macaenses tudo fazer para não deixar morrer estas marcas da sua identidade ímpar no mundo.
E foi justamente sobre os macaenses que Ana Maria Amaro iniciou a sua paixão pela etno-história do Território. “Esse amor foi-se construindo à medida que fui conhecendo e compreendendo essa terra fascinante”.
No início na década de 1960, com base em dados recolhidos na tradição oral que na altura ainda existia e também nos ‘chôc pou’ das famílias Sam e Ho (manuscritos transmitidos de geração em geração e dos quais constam acontecimentos de várias épocas), Ana Maria Amaro desencadeou o processo de inventariação das primeiras famílias a habitar a cidade dois séculos antes de Jorge Álvares chegar à China. Se tivermos em conta que é habitual fazer-se um paralelismo entre o ‘início’ de Macau com a chegada dos portugueses…
Há quem viva num país que não o seu sem nunca o conhecer realmente. Não é o caso de Ana Maria Amaro. “A história de Macau assim como a história da China servem-me de suporte à etno-história que é aquilo que eu gosto de estudar.” (…) Foi assim que nasceu “o desejo de perceber onde estava e não me sentir analfabeta e surda, isto é, não saber ler nem compreender o que os chineses escreviam e diziam.”
E foi assim que começou por se interessar… pela flora local. “Foi o primeiro trabalho que eu publiquei sobre esse assunto depois de ter identificado algumas das espécies da flora local foi um artigo no Boletim Eclesiástico da diocese de Macau por insistência de Monsenhor Manuel Teixeira. O nome desse artigo era “Relíquias Botânicas de Macau”, no qual comecei por dizer que ‘não só as pedras nos falam do passado mas também o mundo verde para quem souber e quiser entende-lo’. A partir dos vestígios de buxo, violetas, tabaco, trepadeiras de betelo consegui localizar casas antigas de famílias abastadas macaenses já desaparecidas”
Estava dado o primeiro passo de uma longa caminhada à descoberta da realidade de uma cidade que embriaga o mais incauto viajante ou morador tal é a multiplicidade de sons, cores e cheiros em que se desdobra. Ana Maria Amaro não só apreendeu essa realidade de uma forma ímpar como nos deixou em várias obras (livros e artigos) o traço da sua passagem por Macau. Nestes textos retrata-se uma Macau de outros tempos que praticamente desapareceu e que importa perpetuar.
De tão extensa que é a lista, refiro apenas alguns exemplos: Ano novo chinês em Macau (1960), Contribuição para o estudo da flora médica macaense (1965), Pun Tchói (1966), Alguns aspectos do artesanato em Macau (1967), O velho templo de Kun Iâm em Macau (1967), Adivinhas populares de Macau (1975), Jogos, brinquedos e outras diversões populares de Macau (1976), Um jogo africano de Macau: a chonca (1980), Três jogos populares de Macau: chonca, talu, bafá (1984), Os macaenses como grupo: alguns dados antropobiológicos (1987), Filhos da Terra (1988), O traje da mulher macaense (1989), Aguarelas de Macau, 1960-1970: cenas de rua e histórias de vida: um olhar retrospectivo, um olhar de saudade (1998), etc.
«Ana Maria Amaro é um nome incontornável entre os que se dedicaram a investigar a história de Macau e da China. Chegou em 1957 “com os restos do tufão Glória” e regressou a Portugal em 1972 mas nunca cortou a sua relação com o Território, “essa terra fascinante” onde iniciou a carreira docente.»
Foi esta a introdução da minha entrevista a Ana Maria Amaro há cerca de um ano. Uma entrevista que impediu este livro de ficar escondido na gaveta. Uma gaveta onde está, também à espera de ser publicada “a minha tese de Doutoramento sobre Medicina Popular de Macau”. São cerca de três mil páginas dactilografadas onde estão as várias técnicas e “mezinhas” (cerca de 600 receitas à base de plantas) usadas pela população chinesa e luso-asiática ao longo dos séculos. Fica o alerta para quem tem responsabilidades na preservação e divulgação da identidade cultural macaense.
*Ana Maria Amaro na resposta à minha pergunta “o que é para si Macau?” em entrevista publicada no Jornal Tribuna de Macau a 8 de Janeiro de 2010
João F. O. Botas, no final de Novembro de 2010 em Portugal. Ou será Macau?
Jornalista e autor do blog Macau Antigo
Informações adiconais neste link

http://macauantigo.blogspot.com/2011/04/jogos-brinquedos-e-outras-diversoes-de.html

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“Jogos, brinquedos e outras diversões populares de Macau“, II parte – I volume, de Ana Maria Amaro.

A apresentação do livro será feita pela autora e ainda por por João Paulo Meneses e João Botas na Delegação Económica e Comercial de Macau (av. 5 de Outubro, Lisboa) no dia 22 de Junho, pelas 18h.

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Este livro está repleto de curiosidades. Eis algumas que passo a partilhar connvosco…
– foi escrito pela primeira vez em 1963 (esta versão tinha 64 páginas), em inglês, por Jack Braga;
– foi inédito ou traduziu para inglês um texto enviado de Portugal? tudo indica tratar-se de material inédito da autoria de Jack Braga;
– teve uma segunda edição, ainda em inglês, em 1965, com mais dados, e outras em 1968 e 1970;
– a edição é do Information and Tourism Department e o livro impresso na Imprensa Nacional de Macau;
– com base nesta edição a Agência Geral do Ultramar faz uma versão portuguesa (faz o mesmo para as então demais colónias) sem que o autor seja mencionado;
– nas demais edições para as outras colónias, há edições com (Angola) e sem autor (Guiné), por exemplo;
– graficamente as duas capas são iguais, só mudam as cores;
– as imagens que os ilustram não são as mesmas, sendo que a edição em inglês tem mais variedade;
– os dois livros incluem um pequeno mapa de Macau e illhas (um é desdobrável, o outro não);
– os conteúdos são muito similares, variando os dados estatísticos apresentados, ora de 1963, 1964 ou mesmo 1965;
– a bibliografia indicada na versão feita em Macau (a inglesa) é mais exaustiva;
– o formato é igual em ambas as versões que têm 72 (inglesa) e 71 páginas (portuguesa);
– a versão em português foi impressa em Portugal (Tipografia Silvas).

Informações adicionais:

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O antigo Governador de Macau, Carlos Melancia, disse hoje que pretende publicar até ao final do ano um livro de memórias sobre os cerca de três anos (1987-1990) que liderou a Região para “pôr algumas coisas preto no branco”.
“O general Garcia Leandro publicou um livro sobre as memórias do tempo em que cá esteve (1974-1979). Combinámos entre os ex-governadores de Macau fazer depoimentos dessa natureza e vou tentar fazê-lo até ao fim do ano”, disse Carlos Melancia aos jornalistas durante a sua primeira visita a Macau desde a transferência de administração para a China, em 1999.
À margem de uma receção na residência consular portuguesa, Carlos Melancia, que regressou a Macau com outro antigo governador Garcia Leandro, lembrou que Rocha Vieira (governador entre 1991-1999) também já publicou um livro, “com caráter mais autobiográfico”, realçando que pretende elaborar um “depoimento histórico”, por considerar “valer a pena ousar pôr algumas coisas preto no branco”.
“Por exemplo, tive quatro reuniões em Pequim no período do início da transição com o então primeiro-ministro chinês, Li Peng, mas nunca contei a ninguém o que lá aconteceu e vou ver se consigo sublinhar esses aspetos que mostram a importância que, na prática, Macau tinha em relação a essa estratégia”, disse.
“Todas as conversações com a China que visavam – e tinham abertura no quadro da Declaração Conjunta Sino-Portuguesa – assegurar para Macau a autonomia que estava prevista” será um dos principais temas que o ex-Governador pretende desenvolver no seu livro, considerando o “início do período de transição mais importante do que os últimos três anos”, sob a liderança de Rocha Vieira.
“Não estou a minimizar nada”, salientou ao sustentar que nos três anos antes da transferência de administração “já não havia espaço para se fazer nada por a China estar a chegar”.
O ex-Governador considera mesmo que “se não tivesse conseguido aquele objetivo, a Declaração Conjunta (assinada em abril de 1987) era um ‘bluff’”, realçando que “era fundamental fazê-lo no período inicial da entrada em vigor da Declaração para se ter espaço para se desenvolverem estratégias”: “Não era com certeza nos últimos quatro anos, em que já não havia tempo”, acrescentou.
Carlos Melancia, que abandonou o cargo de governador em 1990, entre alegações de corrupção passiva no processo de lançamento do projeto do aeroporto de Macau, no que ficou conhecido como o “caso do fax”, tendo sido ilibado de todas as acusações em 2002, disse que também pretende explicar no seu livro o processo de negociações para a construção daquela infraestrutura.
“A decisão de se construir o aeroporto de Macau não foi pacífica. Era muito mais fácil fazer-se um aeroporto na China do que um em Macau”, disse aquele responsável ao lembrar que foi difícil “conseguir o apoio da China” para tal.
Carlos Melancia e Garcia Leandro iniciaram hoje uma visita a Macau de cinco dias a convite do Governo local. PNE- Lusa
Reprodução de ‘take’ da Agência Lusa de 12 Abril 2011
Calros Melancia enquanto governador numa das visitas do então Presidente da República, Mário Soares, a Macau.

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É a “feérie lúdica que Macau representa” que Ana Maria Amaro procura registar na sua obra “Jogos, Brinquedos e outras Diversões de Macau”. A sinóloga está a ultimar a segunda parte do livro, que conta publicar ainda no primeiro semestre do ano, em edição de autor, mas com o apoio da Fundação Macau e, talvez, da Fundação Jorge Álvares. Com prefácio do jornalista João Botas, o volume terá cerca de 700 páginas e surge complementado por fotografias e ilustrações da época.
Nele são descritos pormenorizadamente jogos de azar (incluindo o ‘fan tan’ e jogos de dados), jogos de cartas e dominós, adivinhas populares de Macau (de tradição oral e impressas), puzzles e jogos relacionados com práticas divinatórias.
Nascida em 1929, a autora é professora catedrática jubilada do Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas da Universidade Técnica de Lisboa e também presidente do Instituto Português de Sinologia (criado em 2007). Tem vindo a estudar a China e Macau há mais de 50 anos, desde que veio viver para o território, onde permaneceu entre 1957 e 1973. O primeiro tomo de “Jogos, Brinquedos e outras Diversões de Macau” foi publicado em 1976, mas já estava esgotado nos anos 80. É dedicado aos jogos populares de Macau entre as crianças, enquanto os dois volumes da segunda parte da obra centram-se nos jogos que preenchem – ou preenchiam, dado que alguns deles caíram em desuso – os tempos lúdicos da população adulta.
Jogo de Fant Tan em desenho de Felipe Emilio de Paiva em 1902
O hiato de tempo entre as duas partes desta obra quase enciclopédica deve-se ao facto de manuscritos terem estado em Macau “durante muitos anos” para publicação, pelo Instituto Cultural e por uma editora local. A ideia foi sendo protelada e parte das ilustrações perderam-se, pelo que a autora decidiu tomar em mãos o projecto. Se já é certo que o primeiro volume da segunda parte vai ser publicado, ainda não está totalmente garantido o financiamento do segundo volume, onde são descritos mais de 40 jogos de tabuleiro e “outras diversões”, culminando a obra com uma investigação sobre a ópera de Cantão. É bastante provável, no entanto, que este trabalho venha a ser patrocinado pelo Albergue da SCM, dado que inclui referências às lanternas do coelhinho. Para reunir apoios para a publicação, que tem muitas ilustrações e é onerosa, será organizado um lançamento público da primeira parte, em Lisboa. A autora refere que alguns dos 500 exemplares serão vendidos na RAEM, mas está posta de parte uma visita sua, para fazer a apresentação localmente. Por opção pessoal, Ana Maria Amaro não quer voltar a Macau, apesar de acompanhar regularmente as notícias do território. “Macau já não é a minha Macau” – aponta – e um regresso iria ser “uma desilusão”.
Em declarações ao JTM, a autora recorda que, quando veio para Macau, se sentiu pouco estimulada pela vida social da comunidade portuguesa então residente no território. Motivada por uma “curiosidade imensa” em perceber a cultura chinesa que via pelas ruas, aprendeu a falar cantonense e procurou uma Associação de Artes Marciais chinesas, um mundo onde o mestre Pun Su Sam foi o seu guia. Paralelamente, surgiu o interesse pelos jogos, que motivou uma recolha exaustiva de materiais – tais como baralhos ou tabuleiros – e testemunhos orais. “Não fiz mais nada nos tempos livres (…) Pedia às pessoas para descrever como é que se jogava. Os chineses achavam muita graça ao facto de querer jogar com eles e aprender com eles”, descreve a académica, frisando a dificuldade de alguns dos jogos com que se deparou: “Os carteados não são nada fáceis, são sequências e sequências. No caso dos jogos de tabuleiro, é ainda pior.”
Ao longo dos 16 anos em que viveu na região, Ana Maria Amaro foi “apanhando no terreno coisas que se estão a perder”, não só em Macau, mas em vários locais da China. Tais como, por exemplo, um jogo que viu ilha de Lama [em Hong Kong], em que os jogadores rasgavam as cartas depois de as usarem. 
Perguntas e Respostas: década 1970
Na nota prévia à edição que está em fase de publicação, a investigadora considera que a “simplicidade do primeiro volume” foi tida como o modelo para os seguintes. “A simplicidade será, pois, o traço de união entre os dois trabalhos. E isso porque foi o povo simples de Macau que nos ensinou como, ali, se jogava; como ali, se ocupavam os tempos livres”, escreve. Para Ana Maria Amaro, em Macau os jogos – por regra disputados a dinheiro e não unicamente origem chinesa -, são “algo que domina as pessoas como passatempo”, e até como compensação para as agruras do quotidiano: “Alguns daqueles que jogavam em Macau esqueciam, através do jogo, o próprio desemprego, o desenraizamento, ou , por vezes, até, a fome: fome de arroz, de afecto, ou de estupefacientes. É que o jogo, de certo modo, e em certas condições, desempenha também um notável papel psico-profiláctico, além de indiscutível indicador social”, analisa a autora.
Jogando Seng Kwan Tou nos anos 60 na Areia Preta
O fervor pelo jogo é particularmente vivo durante as comemorações de ano novo, quando os “os chineses jogam para atrair a sorte, procuram abrir o ano novo com sorte”, como descreve a autora na já referida nota prévia: “No Ano Novo Lunar, é o jogo que reina em Macau. É o jogo que prenuncia a boa sorte e a abastança no ano que vai entrar. É o jogo o áugure mais procurado quando o ano abre, com o abrir das flores de pessegueiro e das flores de ameixieira. Joga-se no casino, em casa, na rua, na loja de tomar chá; tão bem sobre um caixote, como sobre um pano de feltro ou de flanela verde. Jogam xadrez os anciãos, à sombra amena das árvores dos jardins e esquecem o seu Outono. Jogam as crianças, também, xadrez, ingenuamente, sobre um papel que colocam no chão, preparando o êxito do seu Outono futuro. Jogo, jogo, jogo!”.
Artigo publicado no JTM de 7-4-2011

em cima: tabuleiro de Pat Sin
em baixo: sequência de imagens publicadas num artigo sobre o jogo em Macau na década de 1930 pela revista francesa L’Illustration: “Un Monte Carlo Populaire en Extrême-Orient”
  

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O Centro Científico e Cultural de Macau e o Centro de História de Além-Mar apresentam no dia 14 de Abril, às 18h30, no Auditório do CCCM (rua da Junqueira, 30, Lisboa) o  livro “Mulheres em Macau: Donas Honradas, Mulheres Livres e Escravas – Séculos XVI e XVII”, da autoria de Elsa Penalva. Entrada livre.

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