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O restaurante Solmar, que hoje (1 Julho) assinala 50 anos, é bem conhecido das “gentes” de Macau, mantém-se como ponto de encontro no centro da cidade e guarda no silêncio das paredes muitas decisões políticas que poderão ter marcado a cidade. Entre os seus fundadores, contam-se nomes como Carlos Assunção, o primeiro presidente da Assembleia Legislativa de Macau, Pedro Lobo, ilustre representante da comunidade macaense, ou Roque Choi, um elo de ligação entre as comunidades chinesa e portuguesa.
Mas é ao longo dos anos, com fundadores e seus descendentes, com a comunidade e, como explicam alguns “filhos da terra”, muito escárnio e maldizer, que o Solmar ganhou fama e conquistou um espaço na vida social da cidade.
“Um grupo de três macaenses está sentado a uma mesa em amena cavaqueira. Quando saírem vão todos ‘má linguá’ (falar mal uns dos outros)”, diz um cliente habitual, com algum exagero próprio do que eram as pequenas cidades onde todos se conheciam. Retirando o exagero que possa existir quando se associa o Solmar à má língua local, não deixa de ser verdade que o restaurante ficou conhecido por ser um dos “pontos estratégicos” na luta do poder em Macau quando a comunidade macaense afrontou o então Governador Almeida e Costa. E na gastronomia local o restaurante também já teve a honra, em setembro de 2010, de ser entronizado como “confrade extraordinário” da Confraria da Gastronomia Macaense a par dos restaurantes chineses Fat Siu Lau e do Long Kei, sendo que este último não resistiu à pressão dos preços do imobiliário.
Meio século depois de aberta a porta pela primeira vez, com 33 empregados e alguns, como o cozinheiro chefe Ieong Choi Yun e o chefe de mesa Sam Veng Yun, há, respetivamente, 43 e 42 na casa, Edith Silva, filha de um dos sócios fundadores, recorda que o espaço é conhecido como a “Gazeta de Macau”.
Edith Silva sublinhou também que o restaurante “faz parte da comunidade” e que, coisa rara nos dias de hoje com a especulação imobiliária, “há 50 anos está implantado no mesmo edifício”. Depois de tantos anos de porta aberta, Edith Silva diz haver vontade de continuar a servir a comunidade e não partilha a opinião daqueles que acham que o espaço muitas vezes serviu para maldizer. “Quando o meu pai e os outros sócios fundaram o Solmar foi para que os macaenses tivessem um ponto de encontro. Não sei se era para dizer mal
dos outros, mas para espalharem a notícia. E hoje continua a ser um ponto de encontro e já não existem muitos onde fazê-lo”, disse. Edith Silva reconheceu, no entanto, que muitas das políticas de Macau foram desenhadas ou pensadas à mesa do Solmar e recordou que, quando ela própria foi deputada, “muitas das coisas que se sabiam era no Solmar”. “No tempo de Carlos Assumpção (…) muitas coisas eram aqui negociadas à mesa do Solmar”, concluiu, garantindo estar pronta para mais 50 anos, assim tenha saúde para isso.
Artigo da autoria de José Costa Santos, Agência Lusa, Macau a 1 de Julho de 2011
NA: Local de tertúlia, mexericos e conspirações domésticas surgiu em 1961 e depressa se tornou numa ‘instituição’ de Macau como se pode verificar no artigo do José Costa Santos da Agência Lusa.
Nos primeiros anos era frequentado essencialmente por portugueses da então ‘metrópole’ e macaenses mais abastada. Na ementa destacava-se, entre outros, a famosa a “galinha africana”. Ainda hoje funciona na av da Praia Grande, quase em frente ao hotel Metrópole. Na imagem um anúncio publicado no jornal O Clarim na década de 1960.

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A propósito de http://macauantigo.blogspot.com/2011/06/adivinhas-populares-maquistas.html – ‘Adivinhas Populares Maquistas” – recebi de um leitor a seguinte nota que a seguir transcrevo. Diz Carlos Lemos que a adivinha nº 3 não tem a solução correcta de acordo com o que a avó lhe contou. No primeiro post a versão apresentada era esta:

Eu cô vôs,
Vôs cô eu,
Bulí, bulí
Chuchú na mêo.
Sã cuza? Sã: tranca
Segundo Carlos, a resposta correcta é ‘ linha e a agulha’ e não tranca. Assim, portanto:
Iou (agulha) co vos (linha);
vos (linha) co iou (agulha);
buli buli ( a linha que vai mexer)
e chuchu na meo (a linha e enfiada no buraquinho da agulha).
«Ora para quem não sabe, a adivinha pode ter outro significado (assim um pouco ‘sujo’) como o nosso Padre Mendes (do Seminário S. Jose de Macau) pensou. Quanto à historia das ‘rotadas’ (spanked by ratan stick) é o seguinte :
Escrevi num papelinho esta adivinha acima mencionada que a minha avó me ensinou quando eu tinha 8 anos. No dia seguinte levei esse papelinho para a escola (Seminario de S. José – Macau) e durante o recreio mostrei o papelinho a um colega (Manuel Basilio). Nesse momento aparece o Sr. Padre Mendes que tirou o papelinho da mão do Basilio. Depois de ter lido o que estava escrito, ele perguntou-me o que era. Respondi que era uma adivinha. O padre Mendes volta-se para mim e diz: “Vais adivinhar quantas rotadas é que vocês vão apanhar?” Depois de um curto silêncio, o Basilio respondeu: “Duas”. Apanhámos 5 rotadas cada um.»
Carlos (Naio) de Lemos
NA: Obrigado Carlos pelo seu contributo.
O colégio de S. José em 1962

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Porque Macau não é nem nunca foi só jogos de casino…
A apresentação do livro “Jogos, brinquedos e outras diversões populares de Macau” 2ª parte – I volume”, decorre dia 22 de Junho na DECM – Av. 5 de Outubro, 114 Lisboa.
Foto de João Botas – Macau, Jardim de Camões, 2009

Prefácio que a prof. Ana Maria Amaro me convidou a escrever para o livro…

“Macau é uma recordação agridoce”*
Em Outubro de 2010 ao receber o convite para escrever este prefácio a minha primeira reacção foi de total surpresa. “Não se terá enganado”, escrevi eu na resposta à Prof. Ana Maria Amaro, contrapondo que existiriam pessoas mais habilitadas já que me faltava “engenho e arte” para tão árdua empresa.
E agora? Como se escreve um prefácio? Ainda para mais de um livro escrito por uma professora catedrática jubilada?… Segundo Confúcio, reconhecer que não se sabe já é saber alguma coisa. Por agora, nem tudo estava perdido.
Ultrapassado o impasse e aceite o convite veio-me à ideia a imagem da capa do livro “Jogos, brinquedos e outras diversões populares de Macau”, uma gravura-aguarela (século XIX) de motivos chineses – representa um grupo de chineses jogando chiquia (bater a andorinha – ta yin) – muito colorida com traços de contorno a preto. Já tinha estado com aquele livro nas mãos ainda nos meus tempos de juventude em Macau mas será que o tinha na minha mini biblioteca dedicada a Macau? Infelizmente, tinha outros dois livros da sua autoria, mas esse não.
Eu e a autora vivemos em Macau em épocas distintas e com idades bem diferentes. Ela entre 1957 e 1972 já adulta. Eu na década de 1980 ainda adolescente. Ainda assim, algo nos ligava: o Liceu Nacional Infante D. Henrique, onde ela foi professora e eu fui aluno. E o fascínio por Macau e pela sua história.
Foi por causa disso quem em 2007 escrevi um livro sobre a história do Liceu e em 2009 criei o projecto Macau Antigo: http://macauantigo.blogspot.com, um blog onde Ana Maria Amaro é uma presença constante devido ao seu trabalho em prol da divulgação da cultura macaense.
Ou seja, sabia quem era e o que tinha feito, mas não conhecia Ana Maria Amaro. E foi desta forma que a ‘descobri’ como Presidente do Instituto Português de Sinologia. No final de 2009 realizei uma série de 25 entrevistas para o Jornal Tribuna de Macau a convite do seu director José Rocha Dinis. A ideia era assinalar o 10º aniversário da transferência de soberania de Macau, ocorrida em Dezembro e 1999. O critério utilizado na selecção dos entrevistados era muito simples: pessoas que se tivessem destacado na vida cultural do território e que vivessem na altura em Portugal. Por vicissitudes diversas muitas das entrevistas foram feitas via e-mail. A de Ana Amaro foi disso exemplo.
Numa longa entrevista amplamente ilustrada com fotografias da época fornecidas pela própria, abordaram-se diversos temas, nomeadamente os seus livros. Perguntei sobre os que tinha escrito e sobre os que ainda queria escrever. Eis algumas respostas:
Tenho dois livros por publicar com muito mais informação e um terceiro que está no prelo e é uma continuação do 1º volume de ‘Jogos e Brinquedos (…)’ que foi publicado em 1976 e mostra como eu ocupava o meu tempo em Macau para além das aulas.”
Instada a mencionar qual o seu livro preferido, respondeu assim: “Merecem-me especial destaque os dois que estão inéditos à espera de editor ou de apoios financeiros das Fundações interessadas em estudos sobre Macau/China.”
A entrevista foi lida e os apoios chegaram. Era mais um exemplo acabado daquilo que me levou a enveredar pelo jornalismo ainda adolescente, ainda em Macau: relatar factos, intermediar, alertar consciências… fazer a diferença. Hoje, tenho a sorte (e espero que também o mérito) de fazer aquilo que gosto e a mesma ilusão de juventude: a de que aquilo que faço serve para alguma coisa. Aqui está, portanto, a razão do convite que me foi feito para escrever estas linhas. É uma honra mas é ainda maior a responsabilidade. Em especial para um ‘analfabeto’ nos domínios da Antropologia ou Etnografia.
A presente edição é a continuação – se assim se pode dizer – do livro publicado em 1976 pela Imprensa Nacional de Macau. Apesar de muitas vezes persistir a informação de que o livro foi editado em 1972 (p.e., na Biblioteca Nacional), na verdade esse número corresponde ao ano em que a autora regressou a Portugal e o livro “foi deixado na gráfica”. Preciosismos à parte, certo é essa edição esgotou poucos anos depois e que hoje só se consegue encontrar numa daquelas livrarias/antiquário a 50 euros cada exemplar!
É nessa primeira edição que ‘aparece’ o “lárgà sarangum”, luta de papagaios. Recordo, a propósito, um excerto de um texto desse ilustre macaense, Henrique Senna Fernandes, recentemente desaparecido do mundo dos vivos:
“(…) Outro passatempo existia no Verão que era a largada do papagaio de papel também chamado o ‘sarangong’, preso à linha, esta de antemão preparada e tratada por uma massa de farinha, gema de ovo e vidro em pó que a tornava cortante. Assim se desafiava outro papagaio para um despique que se reduzia em ver quem cortava a linha do outro. Era o excitante ‘corta-corta’ que tanto entusiasmo produzia entre adolescentes e adultos que o céu de Macau, nas tardes prolongadas de verão, se enchia de ‘papagaios’ de diversas cores, para lutas renhidas. Empregavam-se estratégias, era uma pugna leal, havia verdadeiros campeões que eram galardoados pela admiração geral. Nisto se consumia a boa gente de Macau, num passatempo saudável e inocente, que traduziu bem a época ligeira e despreocupada em que se vivia, com a certeza de que o dia de amanhã seria igual ao dia de hoje.”
Nesta edição do século XXI não aparece o ‘sarangong’ mas estão lá centenas de exemplos de jogos e tradições populares macaenses. O trabalho de campo foi todo feito em Macau durante os mais de 15 anos que a autora ali viveu e trabalhou como professora. “Depois em Portugal levei alguns anos em trabalho de Biblioteca. Os conteúdos são todos novos e ilustrados, grande parte, a cores. Acabei de o redigir em 1998.” Mais de uma década se passou e finalmente esta obra de recolha etnográfica exaustiva (dividida em dois volumes com cerca de 600 páginas) vê a luz do dia. Uma luz que me ajudou a esclarecer partes da realidade que conheci em Macau há cerca de 20 anos.
Recordo-me de ficar intrigado ao ver junto à pequena muralha da Praia Grande, junto ao antigo Liceu, aquele jogo de xadrez (de peças pretas e vermelhas) com que os ‘velhotes’ matavam o tempo debaixo das acácias rubras. Hoje sei que se tratava do ‘Cheong Kei’, um jogo de origem milenar, inspirado na estratégia de guerra. Diferente do xadrez ocidental.
Nas muitas pesquisas e contactos que tenho feito para colocar conteúdos no blog Macau Antigo temas como as tradições da comunidade macaense (aqui incluo todos) têm despertado muito interesse e participação activa dos leitores. Foi assim que fiquei a saber um pouco mais sobre por exemplo o ‘talu’ e o ‘bafá’. O ‘bafá’ é um jogo de cartas muito em voga em Macau até às primeiras décadas do século XX, hoje praticamente esquecido. Já o ‘talu’ era jogado com dois paus, um que batia no outro, mais pequeno e afiado das pontas, como se de um lápis se tratasse. Ganhava o que conseguisse bater no pau sem ele cair ao chão, atingindo uma determinada distância em passos. Este jogo terá chegado a Macau pela mão dos jesuítas no início do século XVIII e manteve-se vivo até ao início do século XX. Em Portugal era conhecido por bilharda.
Muitos dos jogos e tradições abordados neste livro ou já desapareceram dos hábitos do quotidiano ou estão em vias disso muito por causa da diáspora do povo macaense e da voragem do tempo. Também por isso, este livro é imprescindível. Até para os que, ainda vivos, já quase os esqueceram. Cabe à actual geração de macaenses tudo fazer para não deixar morrer estas marcas da sua identidade ímpar no mundo.
E foi justamente sobre os macaenses que Ana Maria Amaro iniciou a sua paixão pela etno-história do Território. “Esse amor foi-se construindo à medida que fui conhecendo e compreendendo essa terra fascinante”.
No início na década de 1960, com base em dados recolhidos na tradição oral que na altura ainda existia e também nos ‘chôc pou’ das famílias Sam e Ho (manuscritos transmitidos de geração em geração e dos quais constam acontecimentos de várias épocas), Ana Maria Amaro desencadeou o processo de inventariação das primeiras famílias a habitar a cidade dois séculos antes de Jorge Álvares chegar à China. Se tivermos em conta que é habitual fazer-se um paralelismo entre o ‘início’ de Macau com a chegada dos portugueses…
Há quem viva num país que não o seu sem nunca o conhecer realmente. Não é o caso de Ana Maria Amaro. “A história de Macau assim como a história da China servem-me de suporte à etno-história que é aquilo que eu gosto de estudar.” (…) Foi assim que nasceu “o desejo de perceber onde estava e não me sentir analfabeta e surda, isto é, não saber ler nem compreender o que os chineses escreviam e diziam.”
E foi assim que começou por se interessar… pela flora local. “Foi o primeiro trabalho que eu publiquei sobre esse assunto depois de ter identificado algumas das espécies da flora local foi um artigo no Boletim Eclesiástico da diocese de Macau por insistência de Monsenhor Manuel Teixeira. O nome desse artigo era “Relíquias Botânicas de Macau”, no qual comecei por dizer que ‘não só as pedras nos falam do passado mas também o mundo verde para quem souber e quiser entende-lo’. A partir dos vestígios de buxo, violetas, tabaco, trepadeiras de betelo consegui localizar casas antigas de famílias abastadas macaenses já desaparecidas”
Estava dado o primeiro passo de uma longa caminhada à descoberta da realidade de uma cidade que embriaga o mais incauto viajante ou morador tal é a multiplicidade de sons, cores e cheiros em que se desdobra. Ana Maria Amaro não só apreendeu essa realidade de uma forma ímpar como nos deixou em várias obras (livros e artigos) o traço da sua passagem por Macau. Nestes textos retrata-se uma Macau de outros tempos que praticamente desapareceu e que importa perpetuar.
De tão extensa que é a lista, refiro apenas alguns exemplos: Ano novo chinês em Macau (1960), Contribuição para o estudo da flora médica macaense (1965), Pun Tchói (1966), Alguns aspectos do artesanato em Macau (1967), O velho templo de Kun Iâm em Macau (1967), Adivinhas populares de Macau (1975), Jogos, brinquedos e outras diversões populares de Macau (1976), Um jogo africano de Macau: a chonca (1980), Três jogos populares de Macau: chonca, talu, bafá (1984), Os macaenses como grupo: alguns dados antropobiológicos (1987), Filhos da Terra (1988), O traje da mulher macaense (1989), Aguarelas de Macau, 1960-1970: cenas de rua e histórias de vida: um olhar retrospectivo, um olhar de saudade (1998), etc.
«Ana Maria Amaro é um nome incontornável entre os que se dedicaram a investigar a história de Macau e da China. Chegou em 1957 “com os restos do tufão Glória” e regressou a Portugal em 1972 mas nunca cortou a sua relação com o Território, “essa terra fascinante” onde iniciou a carreira docente.»
Foi esta a introdução da minha entrevista a Ana Maria Amaro há cerca de um ano. Uma entrevista que impediu este livro de ficar escondido na gaveta. Uma gaveta onde está, também à espera de ser publicada “a minha tese de Doutoramento sobre Medicina Popular de Macau”. São cerca de três mil páginas dactilografadas onde estão as várias técnicas e “mezinhas” (cerca de 600 receitas à base de plantas) usadas pela população chinesa e luso-asiática ao longo dos séculos. Fica o alerta para quem tem responsabilidades na preservação e divulgação da identidade cultural macaense.
*Ana Maria Amaro na resposta à minha pergunta “o que é para si Macau?” em entrevista publicada no Jornal Tribuna de Macau a 8 de Janeiro de 2010
João F. O. Botas, no final de Novembro de 2010 em Portugal. Ou será Macau?
Jornalista e autor do blog Macau Antigo
Informações adiconais neste link

http://macauantigo.blogspot.com/2011/04/jogos-brinquedos-e-outras-diversoes-de.html

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Jogos, brinquedos e outras diversões populares de Macau. Apresentação da II parte – 1 Volume, de Ana Maria Amaro, 22 de Junho, às 18 horas, da Delegação Económica e Comercial de Macau, Av. 5 de Outubro, 115 Lisboa.
Com a presença da autora e dos jornalistas João Paulo Meneses e João Botas.

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Non têm cristám qui non sabe
Quim sã Luís di Camões.
Non têm posia más suávi
Qui posia di Camões.
Camões sã unga letrado
Bêm capaz di Portugal;
Naçám já ficá falado,
Di sala atê quintal.

Camões, “Príncipe di Péta”,
Diverá sã grándi hóme.
Su ôlo já cai na Cêta,
Ele sã já passá fome.

Quelóra vai Portugal,
Camões já ficá cholido;
Buli co corte rial,
Na grádi ficá capido.

“Lusíadas” sã su glória,
Sã honra di nôs cristám.
Ali têm tánto estória,
Di nôs-sua grándi naçám!
Índia Camões já vai
Macau, cavá virá vêm.
Na grádi torná já cai,
Tánto consumiçám têm.

Na Goa buli co guéra,
Na Macau posia fazê.
Cavá torná vai su tera,
Más trabalo já sofrê.

Poema da autoria de José dos Santos Ferreira (Adé), de 1967 e publicado no livro do P. Manuel Teixeira “A Gruta de Camões em Macau” editado em 1999 pela Fundação Macau e Instituto Internacional de Macau.

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Os membros da comunidade macaense ligados a famílias mais antigas hão-de lembrar-se das adivinhas populares que entravam, naturalmente, nas conversas “maquistas” dos nossos avós. Ainda muito miúdo, deleitava-me a ouvir a avó Paquita “papiar” com as amigas no casarão do Tap-Siac ou em casa da “tia” Bernardete, na Rua do Campo. Nesses círculos entravam poucos homens, entre os quais o Olímpio, filho da Bernardete, todos animados conversadores. As horas de ócio eram abundantes, estimulando aquelas amenas cavaqueiras, de que faziam parte adivinhas cheias de “chiste”, produzidas num contexto predominantemente lúdico. Danilo Barreiros, no seu estudo sobre o dialecto português de Macau, deu-se ao trabalho de reunir algumas dezenas dessas adivinhas, publicando-as, em 1943 e 1944, na revista Renascimento (n.º 6 do volume III e n.º 1 do volume IV), de que foi empenhado redactor desde o seu lançamento. Graciete Batalha e Ana Maria Amaro também contribuíram para a sua divulgação. Numa altura em que se fazem louváveis esforços para a valorização da “lingu maquista”, pareceu-me oportuno trazer para este espaço uma selecção dessas adivinhas, cuja grafia então usada também se respeita:

1 Filo dale mãi
Mãi berá.
Sã cuza? Sã: sino

2 Mãi dale filo
Filo dale mãi.
Sã cuza? Sã: pilão

3 Eu cô vôs,
Vôs cô eu,
Bulí, bulí
Chuchú na mêo.
Sã cuza? Sã: tranca

4 B – A – ba, primero letra
L – I – li, divinhaçan;
Quim querê sabê minha nome
Botá ôlo na chan.
Sã cuza? Sã: balichan (balichão)

5 Ung-a lorcha
Tem cinco atai tá rémá
Sã cuza? Sã: pê cô sapatu
(pé com sapato)

6 Eu nacê
Minha mãi morê.
Se non quêro crê
Preguntá cô minha tia.
Sã cuza? Sã: figuéra (bananeira)

7 Cêo riva,
Cêo basso,
agu na mêo.
Sã cuza? Sã: coco

8 Compadre vai,
Compadre vem.
Sã cuza? Sã: onda
9 Ung-a ancusa
Cabeludo,
Abri perna
Metê tudo.
Sã cuza? Sã: meia

10 Ung-a vêlo muito vêlo
Tem tanto barba;
Tudo dia cêdo cêdo sai fóra
Passiá tudo casa casa,
E vai escondê na canto canto
Sã cuza? Sã: vassôra (vassoura)

11 Nicotico
Tem pê
Tem bico.
Filo de Nicotico
Non tem pê,
Non tem bico.
Sã cuza? Sã: galinha e ôvo
(galinha e ovo)

12 Ung-a nhame
Tem sete buraco.
Sã cuza? Sã: cara

13 Eu nacê pra ficá princeza,
Cô corôa de imperatriz;
Ladrão rubá tambén pra mi,
Já rubá tambén minha rubin.
Sã cuza? Sã: romã

14 Metê seco,
Tirá mulado,
Branco, grosso
E pendurado.
Sã cuza? Sã: macaran (macarrão)

15 Quim fazê nada lográ
Quim lográ non pôde olá,
Quim olá lôgo churá.
Sã cuza? Sã: sepultura

16 Ung-a ezercito
de 56 soldado
e 6 capitão,
cô ung-a bandéra de cristão.
Sã cuza? Sã: rosário

Mais adivinhas poderão ser divulgadas neste espaço. Peço a quem as tenha, herdadas dos avós, que mas faculte, dado o interesse na compilação de mais textos como estes do nosso patuá.
Artigo da autoria de Jorge A. H. Rangel, presidente do Instituto Internacional de Macau, publicado no JTM de 07-6-2011

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Equipa de atletismo, 1935 (da esquerda, fila de trás) Frederico Pedruco, Joaquim Collaço, Alberto Cortiço, João Coelho, Delfim Carvalho (King Kong), António Collaço; (filas da frente) Paulo Rocha, Nino Santos, César Amarante, Luís Collaço, Fernando Morais, José Cortiço, Manuel Rego e Vítor Souza.
Cecília Jorge publicou um artigo sobre este Grupo Desportivo na Revista Macau em Novembro de 1994 (II Série nº 31) que a seguir se reproduz e de onde tiveram também origem as imagens.
“O Tenebroso” era formado por jovens simpáticos, uma mão-cheia de atletas que deixaram boas recordações aos que ainda se lembram dos seus brilharetes desportivos durante quase uma década. Falar nas memórias do Piolho (Luís Gonzaga Collaço) e não referir “o Tenebroso” seria imperdoável. Nele alinharam o Collaço e mais dois irmãos, Joaquim e António, este último considerado um dos mais completos atletas do seu tempo: quer no atletismo, quer no futebol.
O Grupo Desportivo O Tenebroso foi fundado em princípios dos anos 30, por Manuel de Jesus (o Manecas), na altura subchefe da PSP. Os rapazes treinavam-se na zona da “avenida” (Vasco da Gama), passando posteriormente para o chamado “bairro da Cadeia”.
Muitos deles (como o famoso Cheiney Airosa) eram ex-membros do Sporting Clube de Macau, e havia também grande rivalidade entre estes e a Associação Desportiva Macaense (ADM), dirigida pelo Vaz, então dono da Leitaria Macaense. Aliás, o próprio fundador do “Tenebroso” a dada altura largou o grupo – abandonando a camisola dos “T” – e foi a correr fundar outro não menos conhecido: o “Argonauta”, cuja sede se manteve até há poucos anos na rua do Campo.
Portanto, grupos desportivos havia uns quantos, numa alegre desorganização, e com falta de tudo, horários, disponibilidade, equipamento. Longe estavam ainda os tempos das associações de estrutura rígida, com regulamentos, calendários, subsídios oficiais e campeonatos. Para além do “T”, Luís Collaço lembra-se que havia na altura, o grupo desportivo da Polícia (a reunir portugueses e chineses), o da Artilharia de Campanha e o da Infantaria, no quartel de São Francisco. Dos chineses, os mais conhecidos eram os de Kong Caio do bairro de São Lázaro) e o de San Kiu, do bairro do mesmo nome.
Jogava-se muito, e jogava-se bem e com gosto, recorda, insistindo no civismo que marcou sempre os desafios de futebol e a grande mágoa que lhe causa agora contrastar essa época com a actualidade – sobretudo porque nunca deixou de ler os jornais, ver televisão e ouvir rádio – e verifica que, além de se engalfinharem, os jogadores se voltam contra o árbitro, chegando a vias de facto.

Equipa de futebol com os troféus da época de 1935-36

Sem taças ou medalhas, na altura jogava-se futebol apenas por amor à camisola e pelo gosto de triunfar. Equipamento e bolas também não havia, e muitas vezes foi sina do “Tenebroso” jogar com um simples calção branco e a camisola de alças, depois já ornamentada com o “T” da praxe, quando começaram a ter nome… Até que um dia, alguém de posição e posses, pela grande simpatia que lhe despertava aquele grupo de bons atletas “rafeiros”, se lembrou de lhes custear um equipamento completo: calção, camisola, peúgas e, melhor que tudo, sapatilhas e bolas de futebol. Vestiu e calçou quer a primeira, quer a segunda divisão do “Tenebroso”. Adolfo Jorge, o advogado, fê-lo por interposta pessoa, mas fê-lo pela representatividade de Macau, porque oito ou nove dos jovens do grupo Já integravam a selecção nos jogos com Hong Kong.

“Combinavam-se” jogos e os campeonatos anuais, não só de futebol, mas também de atletismo, e o “Tenebroso” foi vitorioso praticamente anos a fio, tendo perdido apenas duas ou três vezes o título de campeão até se desmembrar, depois da Guerra, com a saída de vários jogadores. Os árbitros eram convidados na véspera do encontro ou escolhidos na altura, e fosse qual fosse a arbitragem, os jogadores respeitavam-na. Mas havia dois mais respeitados: o Chico Constando e um tal cabo Santos, do quartel da Infantaria.
Os encontros dos macaenses com a tropa eram renhidos e bem disputados no recinto, mas independentemente do resultado, a rapaziada acabava com palmadas nas costas e numa valente jantarada na messe, sendo convidados para comer o “rancho” com os militares.
Em atletismo, o “Tenebroso” marcou também pontos nas provas disputadas tradicionalmente na Páscoa. Das medalhas é que ficaram por vezes apenas recordações, tal como em 1935: tendo ganho as estafetas nos 800, 400, 200 e 100 metros, Fernando Morais, Vítor Souza, Manuel Rego e Luís Collaço ainda hoje estão por saber o que foi feito das medalhas respectivas…
Com o desmantelamento do “Tenebroso” depois da Guerra, Collaço ainda participou num grupo desportivo nos seus tempos de funcionário das Obras Públicas. Sabendo-se que são necessárias duas equipas para disputar um jogo de futebol, e tendo formado, no caso, duas equipas igualmente representativas daquela repartição do Estado, avançou-se com uma solução brilhante: uma era a equipadas “Obras Públicas” e outra, a das “Públicas Obras”.
Mas das especificidades do desporto de então, “falam” hoje melhor as fotos…

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