memórias


>

O 1º Cabo Luís Amadeu Marrucho desembarcou em Macau a 24 de Agosto de 1949 depois de uma viagem a bordo do ‘Niassa’ que durou 40 dias. Fez parte do grupo de homens que constitui a ‘Bataria Independente de Artilharia Anti-Aérea 4 cm Expedicionária’, uma das várias unidades criadas na altura para proteger o Território da situação conturbada que se vivia na China. Aos 83 anos recorda momentos únicos da sua vida de militar e só tem pena de nunca ter regressado ao Macau.
Marrucho: à esquerda na imagem

Luís Amadeu Marrucho nasceu a 27 de Maio de 1927 na aldeia de São Gregório, freguesia de Cristóval, concelho de Melgaço, no Norte de Portugal colado a Espanha. Aos 21 anos deixou a sua aldeia natal para cumprir o serviço militar. “A 4 de Abril de 1948, pelas 14 horas, junto com outros companheiros entrei no Quartel Militar de Penafiel (Grupo de Artilharia Contra Aeronaves nº 3). Logo de seguida, um cabo indicou-me o meu número, 463/48, dizendo-me para me dirigir ao Depósito de Fardamento, onde me entregaram o respectivo fardamento. Seguidamente, um furriel deu-me um papel para me dirigir à Caserna da 1ª Bateria para me distribuírem a cama e cacifo. Nesse dia não nos forneceram qualquer refeição, valeu-nos o que tínhamos comido antes pois também não nos foi permitido sair.”
Na manhã seguinte, logo cedo, tocou o clarim e toca a levantar, fazer a cama e arranjar-se rapidamente. Novo toque para formatura dos recrutas das 1ª,2ª e 3ª baterias. “Não tardou, um Tenente passou revista às baterias e ordenou ao Sargento para nos encaminhar para o refeitório, a fim de tomarmos o pequeno-almoço. No final, de novo para a caserna substituir a farda pelo fato de ginástica. Toque de clarim para a ginástica.” Tudo tinha que ser feito rapidamente pois quem chegasse atrasado, no final da instrução iria descascar batatas ou lavar pratos. A seguir à ginástica, toca a marchar… “Passados dias tive instrução de manejo de espingardas e de peças de artilharia.”
Assim decorreram 4 meses, no fim dos quais se realizou o sorteio e juramento de bandeira. “No sorteio saiu-me o número 7 o que significava permanecer 16 meses como militar. Todos os que tinham a 4ª classe iam tirar o curso de 1º Cabo, o que foi o meu caso. Como tinha tirado o nº 7 no sorteio permaneci no quartel até nova recruta se apresentar, já no ano de 1949. Feito o curso da Escola de Cabos, fui promovido e realizei as tarefas que me foram atribuídas, até ao dia 3 de Junho de 1949.”
Certo dia, de finais de Outubro ou inícios de Novembro, da parte da tarde, tocou a formatura geral. O Comandante mandou ligar os “Matadores”, camiões fortes onde eram atreladas peças de artilharia e tomou-se a estrada em direcção ao farol da Guia para tomar posição de fogo. “Perguntámos o motivo de tal acção e o comandante disse-nos para verificarmos, pelo binóculo, o que se estava a passar no porto interior, no meio do rio. Ali, encontravam-se vários barcos e barcaças cheias de gente.”
Por esta altura Luís Amadeu Marrucho foi mobilizado pela nota 3/3º do Ministério da Guerra nº 543/MT de 3/06/1949, e destacado para a colónia de Macau, fazendo parte da 2ª Bateria Expedicionária do Regimento de Artilharia Antiaérea Fixa localizada em Queluz. “O Comandante do quartel de Penafiel reuniu todos os cabos e soldados que iam para Macau e lamentou que, a poucos dias de irmos para casa, tivéssemos sido mobilizados, mas as ordens eram para cumprir.”
Cinco ou seis dias depois receberam as guias de marcha para se apresentarem no Regimento de Artilharia Antiaérea Fixa de Queluz, onde permaneceram dois dias. Daí foram transportados para um quartel em Paços Brandão, pertencente ao dito Regimento e que estava praticamente desactivado. Este quartel ficava na outra margem do rio Tejo, em frente ao Palácio de Belém. O Comandante da Bateria informou-os de que não precisavam de estar no quartel. Os de Lisboa podiam ir para casa e os restantes podiam andar pela cidade, ou ir onde quisessem, até ao dia do embarque. Marrucho decidiu ir passear. “Deixei Paços Brandão e fui ter com um amigo e vizinho da terra que estava no Regimento de Cavalaria 7 na Calçada da Ajuda. Aí passei o tempo, a visitar Lisboa.” E assim fez durante vários dias. De dia vagueava por Lisboa e à noite regressava ao quartel. Até que uma noite … “cheguei atrasado, não pude entrar e tive que dormir num banco de jardim, em frente ao Palácio de Belém. Fui interpelado por um polícia que me disse que não podia dormir ali. Respondi-lhe que estava mobilizado e que me deixasse em paz. Foi-se embora. “
Chegou o dia 15 de Julho de 1949 e reuniram-se todos os que tinha guia de marcha rumo a Macau no quartel de Paços Brandão como lhes tinha sido dito pelo Capitão. Com ele estavam 3 tenentes, um alferes, sargentos e furriéis. Pelas 13horas chegou a lancha da Marinha para os iria transportar até ao cais de Alcântara. “Quando lá chegamos já lá se encontravam uma Companhia de Engenharia, duas de Infantaria, uma de Sapadores Amadores, telegrafistas, etc. …Formámos no cais à espera da chegada do Sr. Ministro da Guerra para a revista das tropas. Após cumprimento das formalidades foi-nos dada a ordem de embarque. “
No cais a multidão era imensa. Familiares e amigos vinham para a derradeira despedida. “Entrámos no navio, O Niassa, dirigimo-nos aos porões à procura do nosso número de cama e lá colocámos a nossa bagagem. À medida que o navio afastava, a nossa tristeza aumentava com as saudades dos nossos familiares e amigos. Tínhamos jurado amor ao nosso Portugal e à nossa Bandeira mas era doloroso deixar o solo Pátrio. Passando a barra recolhi ao porão onde me deitei e nem sequer fui jantar.”
40 dias a bordo do Niassa
A viagem seguiu em direcção a Porto Said. Mais ou menos a meio da viagem um dos três capelões que seguia a bordo faleceu. Foi depositado durante 24h no Salão Nobre do navio. Um dos seus colegas disse uma missa e, de seguida, a urna foi levada para a proa. O navio parou, lentamente, a urna desceu à água onde se afundou. “Visto na época não existirem câmaras frigoríficas, não foi possível levá-lo até Porto Said onde o esperava um irmão. Foi um momento muito triste.“
Chegado a Porto Said, o navio Niassa não pôde atracar junto ao cais. Fundeou ao largo e as tropas foram transportadas a terra em baleeiras. “Deram-nos 200$00 e dirigimo-nos ao banco onde trocamos os escudos por rupias ou piastras, não sem antes os funcionários nos dizerem que o nosso dinheiro era muito bom. As ruas da cidade eram muito sujas e algumas não podíamos visitar, já que a polícia não o permitia. Apenas bebi uma cerveja porque estava lacrada, não comi nada porque tudo me pareceu impróprio. No dia seguinte, após o navio ter sido abastecido com carvão e água, partimos.”
O Canal do Suez foi atravessado sob escolta de aviões ingleses e foi necessário ligar na proa do navio holofotes que iluminavam o Canal de margem a margem. Seguiam sete ou oito navios, uns atrás dos outros. O Niassa era o último uma vez que transportava explosivos. “Entrámos no Mar Vermelho e fomos visitar a cidade de Adem (Golfo de Adem). Fomos em grupo pois era perigoso ir só. Nesta cidade as mulheres usavam a cara tapada. Durante este passeio fomos abordados por um homem que se abraçou a nós a chorar. Era um português que nos pediu para o trazermos para Portugal pois tinha ido num barco que ali atracara, perdeu-se na cidade e quando regressou ao cais já o navio tinha partido. Informámo-lo que nos dirigíamos para Macau. Este conterrâneo acompanhou-nos durante a visita à cidade. Em frente à cidade de Adem vê-se uma colina escarpada, o Monte Sinai. Os Padres informaram-nos que tinha sido ali que Jesus entregara a Moisés as Tábuas da Lei. “
A viagem prosseguiu pelo Mar Arábico com destino a Colombo. Poucas horas navegadas e surgiu uma tempestade de areia. “Era como se chovesse. Muito engraçado e diferente. Dizia a tripulação que a areia devia vir do Deserto do Sara.” Chegados a Colombo nova visita a terra para visitar a cidade. “Num jardim bem cuidado encontramos uma pedra, de enormes proporções, onde estava gravado o Escudo Português com a coroa do Rei. Era uma cidade limpa e muito bonita.” De volta ao Niassa a viagem prosseguiu para a última etapa rumo a Singapura. Novo porto de escala, nova cidade. “Visitámos a cidade, suja e velha. No porto de mar viam-se os mastros dos navios afundados durante a 2ª Guerra Mundial.”
Junto à ‘pedra’ gravada que asinala olocal o foi assassinado o gov. Ferreira do Amaral
(perto de Mong Há e do templo de Lin Fong)
De Singapura o Niassa partiu rumo a Macau onde chegou a 24 de Agosto de 1949 ao fim de 40 dias de viagem. “Chegados à barra, na foz com o rio Cantão, o navio fundeou ao largo pois a maré estava baixa. Fomos transportados, através do rio Cantão, em grandes barcaças até ao porto. Avistava-se uma grande avenida, a Avenida da Praia com árvores frondosas. No alto da colina, o Farol da Guia. Sentimos muito calor que era amenizado pela brisa do mar, mas em terra o calor abrasava. No porto encontravam-se dois navios de guerra portugueses, o Pedro Nunes e João de Lisboa.”
Os homens foram então transportados para o quartel em Mong Ha. Este aquartelamento ficava situado junto à estrada da Areia Preta, que se juntava, numa bifurcação, da Avenida Almirante Lacerda, que por sua vez ia directa às Portas do Cerco. “No quartel encontravam-se 5 ou 6 soldados duma Companhia, dita das Beiras. Fui dos primeiros a chegar e esperei pelos restantes. Fomos para a formatura, munidos com um copo, cantil e marmitas. Pelas 14h30m, em fila, fomos receber a 1ª refeição do dia: uma concha de arroz, meio frango grelhado, sopa, vinho e fruta à escolha. Perguntei se era sempre assim e disseram-me que ainda era melhor já que aquilo tinha sido à pressa. Nesse quartel não havia refeitório e no dia seguinte foi necessário improvisar um, e à pressa. Estas instalações improvisadas só duraram aproximadamente dois meses pois entretanto foi construído o quartel e ficamos bem instalados. Já tínhamos casa de banho, mosquiteiros e ventoinhas.” Guerra civil chinesa chega a Macau
Marrucho – é o segundo da dta. para a esq. – no novo aquartelamento
A China sofria uma guerra civil. Combatiam Nacionalistas contra Comunistas e vice-versa. “Como chefes comunistas Mao Tse Tung e Ling Chiu, e do lado dos nacionalistas Chian Kai-Shek. Os nacionalistas foram perdendo terreno e recuando até ao rio Cantão, também chamado dos Piratas. Aí não tiveram outra solução senão meterem-se nos barcos (soldados, oficiais, mulheres, crianças, material de guerra etc.) e atravessarem para o meio do rio.” As tropas de Mao queriam que se rendessem; eles não queriam pois sabiam que morreriam, mas também não queriam entregar-se às tropas portuguesas. “Entretanto nós enchíamos sacos de areia para proteger as peças de artilharia. Aproximou-se a noite, levaram-nos de comer e capotes por causa do frio. Como já era escuro, cada um pegou um capote; de manhã foi uma farta de rir porque estavam todos trocados, (soldados com capotes de furriéis e vice-versa, etc.).”
Esperavam-se novos acontecimentos em relação com os chineses… “Uma lancha da nossa Marinha dirigiu-se aos chineses para se entregarem, eles recusaram, mas de quando em vez, as forças contrárias atiravam algumas rajadas de metralhadora.”
Quem mantinha contacto com o Governo de Portugal era o comandante do navio Pedro Nunes, da Marinha Portuguesa, que transmitia todas as informações recebidas ao governador de Macau, Albano Rodrigues de Oliveira e ao Comandante Militar, Cota de Morais. “O nosso governo aconselhava calma. Após algumas tentativas da nossa marinha, os chineses resolveram entregar-se. Como tudo se resolveu, não foi necessário abrir fogo.”
Todos aqueles militares e familiares, bem como o material, à excepção dos explosivos, foram encaminhados para o campo de futebol 28 de Maio (Canídromo). Aí dormiam debaixo das bancadas do campo e as refeições eram-lhes ministradas por chineses credenciados, bem como sabão e tabaco. “Nunca soube, ao certo, quem ordenava estas coisas, mas talvez o Governador. Ninguém podia entrar ou sair sem ser pela porta principal, guardada pelas tropas portuguesas. Também lá fiz serviço. Passado algum tempo foram autorizados a sair do Campo para a cidade. No início voltavam mas por fim desapareceram. Alguns ainda foram vistos pelas redondezas do quartel a pedir comida.”

Na inauguração da gruta em Outubro de 1949. Marrucho é o primeiro à direita na imagem
“Quando saímos de Lisboa dizia o ‘jornal da caserna’ que o Sr. Bispo de Leiria tinha oferecido uma imagem de Nossa Senhora de Fátima. Éramos muitos e de armas diferentes, a imagem, por questões de segurança, não podia andar de Companhia em Companhia.” Após um sorteio recaiu na unidade de Marrucho a responsabilidade de construir uma gruta para a colocação da dita imagem. “Para a inauguração da mesma foi efectuada uma missa campal com guarda de honra, da qual fiz parte.” A porta do quartel foi aberta para apresentação de todas as guarnições militares, para chineses e macaenses. A esta cerimónia, além dos comandos militares, também assistiu o Governador, Albano Rodrigues de Oliveira, natural de Viana do Castelo.
Durante o tempo que esteve em Macau a cumprir o serviço militar Luís Amadeu Marrucho foi ainda monitor das aulas regimentais para ensinar a ler e escrever os soldados que não sabiam, “acompanhando o professor da classe civil que lá ia dar as aulas.”

(NA: após esta entrevista a filha de um antigo aluno de Marrucho pediu-me os seus contactos para reavivar memórias do seu falecido pai; ver post sobre António de Matos Oliveira)
Passados dois dias da chegada Amadeu Marrucho dirigiu-se ao edifício dos Correios para enviar uma carta e, ao mesmo tempo, conhecer a cidade. “Cheguei ao centro “Largo do Leal Senado”e Câmara e lá encontrei a estátua de Vicente Nicolau de Mesquita, um tenente macaísta que com alguns soldados se dirigiu para a China, passando num local denominado Passaleão onde estavam entrincheirados alguns soldados chineses. Travou uma luta com eles e saiu vencedor. Foi promovido a Coronel.”
Percorreu avenidas, ruas e ruelas e tudo apreciou com curiosidade. “Junto às Portas do Cerco passei alguns momentos a ver a passagem dos chineses que entravam na cidade trazendo tudo o que fosse comestível: legumes, galinhas, patos, porcos e até serpentes aprisionadas numas redes finas. Tudo isto era destinado aos restaurantes.”
Certo domingo Marrucho passava em frente à igreja de S. Domingos, próxima do mercado, e resolveu entrar. “Pela porta aberta vi que havia missa, entrei no momento em que o padre começava a falar. Apercebi-me que falava chinês e que a missa era dirigida a chineses. O Padre olhava para mim admirado, bem como os chineses; eu, com a insistência dos olhares, acabei por sair.”
Durante o tempo em que Marrucho permaneceu em Macau surgiram dois tufões. “O 1º foi fraco mas o 2º foi horrível e causou muitos danos (queda de árvores, postes de electricidade no chão, casas desmoronadas, etc.). Nas ruas só podia andar a polícia para evitar os roubos. Os chineses sabiam o que ia acontecer: dias antes colocaram no Alto da Guia um aparelho através do qual avisavam a população para se preparar comprando géneros alimentícios, pois não se sabia a duração e intensidade do tufão.”
Um dia, junto com outros colegas, Marrucho pagou a uns chineses para os levarem de barco até à praia da Ilha de Coloane. “Lá encontravam-se algumas chinesas. Como fazia muito calor, rapidamente nos dirigimos para a água. De repente começou a chover e as chinesas abriram os guarda-sóis e foram para a água. Nós, admirados, rimos imenso, pois para nós era estranha aquela situação.”
Como apenas estava de serviço quatro dias por mês, dois dias de cabo de dia ao quartel, e dois dias juntamente com seis soldados para velar pela segurança dos paióis do material bélico, Marrucho tinha muito tempo livre que aproveitou para conhecer toda a cidade de Macau, desde as Portas do Cerco até ao Pagode da Barra dedicado à Deusa A-MA, e da Ilha Verde até à Baía da Praia Grande. “Percorri avenidas e ruas, lindos jardins, visitei a Gruta de Camões, o hipódromo onde regularmente se realizavam corridas de cavalos, igrejas, pagodes chineses, cinemas e casinos. Nestes era-nos proibido entrar mas, como nos podíamos vestir à civil, de vez em quando lá entrávamos, no meio dos outros. Todas as noites saía para passear,” recorda.
Voltando ao dia-a-dia da vida militar, Marrucho recorda ainda a alimentação que classifica de boa e “bem confeccionada por cozinheiros chineses. Todos os dias ao pequeno-almoço tomávamos um comprimido, chamado quinino para evitar doenças por causa da picada dos mosquitos. A roupa, marcada com o número de cada um, lavada e passada a ferro na lavandaria, era colocada sobre cada cama. Não faltava nada, era como se tivéssemos ido passar férias.”
Umas ‘férias’ que duraram três anos e que estiveram para ser prolongados. “Poucos dias antes do regresso a Portugal, alguns polícias foram ao quartel convidar-nos para ficar naquela corporação em Macau. Ninguém respondeu. Passadas umas horas, o 1º Sargento David Coelho Araújo, oriundo do Cartaxo, disse-nos que quem quisesse aceitar ficar na polícia podia fazê-lo, mas quem o fizesse podia dizer adeus à família. Enquanto militares, a viagem para Macau e o regresso eram gratuitos mas, caso ficássemos, nunca mais ganharíamos dinheiro para regressar.”
Marrucho decidiu regressar a casa mas antes “pedi a um médico amigo que me facilitasse a realização de alguns exames médicos, pelo que estive internado 4 dias no Hospital de S. Januário.”  O embarque rumo a Portugal aconteceu a 23 de Outubro de 1951 no navio “Timor” que passou por Macau proveniente da Província de Timor na sua viagem inaugural. “Chegámos a Lisboa a 23 de Novembro de 1951. Custou muito partir e deixar a família. Foram muitas as saudades. No entanto, não fosse a tropa, nunca teria conhecido estas longínquas paragens. Hoje sinto alguma nostalgia daqueles tempos e muito gostaria de voltar a rever aqueles locais que, sendo maravilhosos então, agora ainda estarão mais bonitos.”
Luís Amadeu Marrucho tem hoje 83 anos (à data da entrevista) e nunca regressou a Macau.

Entrevista publicada no Jornal Tribuna de Macau em 9 de Abril de 2010

http://www.jtm.com.mo/view.asp?dT=342801001
NA: Esta é mais uma forma que encontrei para agradecer ao Sr. Marrucho por ter partilhado as suas memórias.

>

Eu não conhecia Luís Marrucho. Macau juntou-nos, ainda que várias décadas depois. Ele viveu lá nos anos 40 e eu nos 80. Foi o seu neto que me contou a sua história em 2009, salvo erro. Falámos ao telefone, trocámos impressões e, passado pouco tempo o Sr. Marrucho (já vai a caminho dos 90 anos) e eu parecíamos amigos de longa data. Prometi-lhe que logo que pudesse, faria questão de o ir visitar a S. Gregório (Melgaço), a sua terra natal e, como ele costuma dizer, “aqui é que começa Portugal”. De facto, é a fronteira mais a Norte.
Assim, em Abril de 2001 cumpri a ‘promessa’. Percorri mais de 500 quilómetros e foi com grande satisfação que conheci pessoalmente o Sr. Marrucho. Falámos mais de seis horas consecutivas…
Foi militar entre 1947 e 1951. Já quase no final do serviço militar obrigatório , em 1949, foi mobilizado para Macau como ‘cabo’. A 3 de Junho estava em Penafiel quando recebeu as “guias de marcha” para a a anti-aérea de Queluz
Conta muitas histórias do seu tempo de Macau. Como se tivessem acontecido ainda ontem. “Um dia houve uma formatura geral por causa de um problema com um militar. O capitão (João Teixeira Bragança, casado com uma macaense) ficou muito irritado por ter havido um roubo a um comerciante chinês. Certo é que enquanto os produtos roubados não apareceram toda a companhia ficou de castigo.”
Nunca regressou a Macau. Num próximo post vou publicar a entrevista que lhe fiz via carta e e-mail em finais de 2009 e publicada no Jornal Tribuna de Macau em Abril de 2010. Publico ainda fotografias tiradas por L. Marrucho e tornadas públicas pela primeira vez.
É a minha homenagem por ser quem foi e por ser quem é. Obrigado por partilhar as suas memórias de Macau, Luís.
Nesta fotografia, mais uma tirada pela tal máquina fotográfica comprada pelos três camaradas de armas, um jipe norte-americano, memória da Guerra do Pacífico terminada anos antes. Este era propriedade de um rent-a-car. Era prática habitual os militares portugueses passearem nele aos fins-de-semana e dias de folga.
Para aguçar a curiosidade para a entrevista aqui ficam algumas ‘notas soltas’ da conversa que tivemos em Abril último.
– a partida foi do cais de Santa Apolónia com a presença do ministro da Guerra, Santos Costa, onde embarcaram no Niassa a 15 de Julho de 1949;
– uma enorme multidão no cais de embarque despediu-se dos mais de mil militares que seguiram a bordo;
– dezenas de pessoas tentaram arremessar presentes para bordo, volumes de cigarros e outros produtos, e muitos caíram ao Tejo;
– ao fim de 4 dias de viagem um dos padres que seguia a bordo morreu e depois das cerimónias fúnebres foi lançado ao mar;
– em Port-Said o Niassa ficou bastante afastado do cais por transportar material de guerra;
– neste porto fizeram o reabastecimento (na imagem) de carvão, água e alimentos e os militares puderam ir a terra;
– a passagem pelo canal do Suez foi feita num ‘comboio’ de navios;
– em Haden foram mais uma vez a terra e com dinheiro providenciado pelo exército podiam comprar alguns presentes;
– nesta cidade encontraram um português que perdera os documentos e a ligação de um barco e deambulava pela cidade;
– em Colombo viram e sentiram uma tempestade de areia com o convés do Niassa a encher-se de areia…
– nesta cidade Marrucho recorda os bonitos jardins onde estava um escudo e a imagem de Vasco da Gama;
– Ultrapassada Singapura, o tempo piorou e o Niassa teve de ultrapassar ‘redemoinhos de água’;
– a bordo “café com leite e pão muito branquinho ao pequeno almoço, ao almoço carne de camelo e à tarde chá e bolachas”;
– à chegada a Macau, a 24 de Agosto de 1949, a primeira refeição foi frango assado, arroz e vinho no quartel de Mong Há;
– foram acolhidos pela companhia das Beiras;
– Marrucho recorda, por exemplo, que num dos exercícios com as tropas expedicionárias era preciso formar a frase “nós não somos demais para defender Portugal”, mas nem sempre a frase saía correcta…
Marrucho, 1º da direita, com camaradas de armas na estrada da penha
– perto da Melco havia uma nascente onde iam buscar água para o cantil;
– no Verão de 1949, por causa da situação de guerra civil na China, receberam um aviso para se apresentarem nos seus postos e ficarem em “estado de prontidão”;
– em 1950 L. Marrucho foi nomeado professor de 1ª classe das Escolas Regimentais (para militares);
– em 1951 regressou a Portugal, e com ele o “Macau”, um cão que tinha ido de Portugal com a sua companhia;
– um dos últimos ordenados (pré) rondava as 110 patacas (cerca de 600 escudos);
– nos dias de folga passeavam pela cidade, iam às ilhas…
– Marrucho fez parte de um grupo de militares portugueses escolhidos para fazer uma visita ao aeroporto de Kai Tak (Hong Kong) a convite do exército britânico que os presentearam com uma pequena viagem pelos céus da região;
– a companhia de que Marrucho fez parte fez as honras (e ele também) militares na inauguração da gruta de N. Sra. de Fátima;
– filho de um antigo guarda fiscal, Marrucho podia ter seguido a carreira militar, mas seguiu as pisadas do pai, e foi guarda fiscal desde 1952 até se reformar;
– Luis Marrucho nasceu em 1927 e nunca regressou a Macau… 
– Quem tiver conhecimento de camaradas de armas da comissão militar em Macau pode entrar em contacto com o macauantigo@gmail.com
– Eu sei que ele ia gostar!

>

António de Matos Oliveira nasceu a 18 de Novembro de 1927 em Vale de Besteiros no concelho de Tondela e faleceu a 23 de Abril de 2010.  Cumpriu o serviço militar na então denominada Colónia de Macau entre 1949 e 1951. A sua passagem por Macau foi breve mas marcante. Tudo começou no antigo Cais de Santa Apolónia. Era aí que os soldados ‘apanhavam’ os navios que os levavam para “Ultramar”.
A 15 de Julho de 1949 foi a vez de A. Matos de Oliveira subir a bordo do “Niassa” rumo a Macau. Desembarcou no Território 40 dias depois, a 24 de Agosto. Fez parte do grupo de homens que constitui a ‘Bataria Independente de Artilharia Anti-Aérea 4 cm Expedicionária’, uma das várias unidades criadas na altura para proteger o Território da situação conturbada que se vivia na China.
O regresso a  Portugal aconteceu a 23 de Outubro de 1951 no navio ‘Timor’ que passou por Macau proveniente da Província de Timor na sua viagem inaugural“. A chegada a Lisboa ocorreu a 23 de Novembro de 1951. Um das suas filhas, Vitalina, recorda a memória do seu pai… um testemunho na primeira pessoa em exclusivo para o blog Macau Antigo.
Sou filha de um antigo soldado em Macau. Meu pai embarcou para Macau no vapor “Niassa”, no dia de Julho de 1949, tendo ficado aquartelado em Mong Há. Regressou à Metrópole em 26 de Outubro de 1951 no vapor “Timor”. Deixou a escola aos 10 anos e foi trabalhar com os irmãos mais velhos. Trabalho sazonal no Ribatejo, Alentejo… onde quer houvesse trabalho… não gostava de falar desse tempo. Só me lembro de o ter feito há uns anos quando víamos juntos um programa sobre as comemorações do fim da 2ª Guerra Mundial. Falou do sofrimento desse tempo e disse… “tempos de escravidão, não gosto de me lembrar”…

Dessas viagens e dos tempos em que por lá esteve, muitas histórias nos foram contadas na infância e Macau,era como uma terra de conto de encantar. Chamávamos a essa História em jeito de brincadeira e algum enfado “ A Rota de Ceilão”…
Esta história era acompanhada por muitas imagens guardadas num velho álbum. Anos mais tarde, era aos netos que a história era contada, mas já sem imagens. Perdemos o rasto ao seu álbum. Meu pai deixou-nos há poucos dias. Tivemos que abrir as gavetas da sua velha secretária onde nem filhos, nem netos, estavam autorizados a mexer.
No meio das suas muitas recordações, caíram nas minhas mãos as velhas fotos que tanto me fizeram sonhar na infância e a “Rota de Ceilão” acordou na minha memória.
Tive curiosidade em saber se Macau também deixou saudades em outros antigos combatentes e foi assim que descobri o seu blog.

Foi “alistado” em 1947. Para Macau acho que foi porque lhe “calhou nas sortes”… Não foi militar de carreira, mas creio que adoraria ter sido. Admirava o Exército e lá em casa a disciplina era “militar”… também deveria ter sido um bom economista, contas era com ele e administrar finanças melhor ainda…
António de Matos Oliveira frente à gruta dedicada a N. S. de Fátima
Casou três anos depois do regresso de Macau, mas o namoro já era antigo. No ano seguinte nasceu a primeira filha. Para fugir à vida do campo que detestava, foi como “guarda” para uma exploração mineira no lugar de Várzea dos Cavaleiros, na Sertã, no ano de 1956. Ai nasce a 2º filha, eu. Em 1960 já tinha quatro filhos.
Folha da Caderneta Militar de A. Matos de Oliveira
Nesse ano passa a “capataz” da “lavaria” da mina. Vai a Espanha fazer formação e passamos a residir na “mina”. Somos quatro crianças num mundo de adultos. É nesse tempo que a “história da rota de Ceilão” encanta a nossa infância. Não há televisão…apenas telefonia…e o álbum do meu pai é o único livro lá de casa. Quando abria aquele livro de capa castanha, com um “pagode” chinês estampado e nos falava do Canal do Suez, mar Vermelho, Colombo, Rio das Pérolas, Portas do Cerco, Gruta de Camões, a areia da praia de Coloane, os templos chineses, era tudo uma magia. Descrevia cada uma das fotografias e muito ficava na nossa fantasia.

Casa de Sun Yat Sen: década 1950

Lá em casa só havia conversas com homens, mas muitos assuntos eram proibidos. Ouviam uma estação de rádio de que não podíamos falar… e contavam muitas histórias de bruxas, lobisomens e outros feitiços de encruzilhadas…e claro a rota de Ceilão deixava aqueles mineiros sem palavras… Em 1965 aquela exploração mineira foi encerrada. Com a mesma empresa mudamos para Castelo de Paiva, para as minas de Terramonte.

Pela primeira vez vivíamos na aldeia. Meu pai tinha mais responsabilidades e mais trabalho e nós passávamos o dia na rua, se não havia escola. A” vida social” era intensa: televisão na “venda” ( taberna, mercearia e salão social e cultural da aldeia… visitas a todos os colegas de meu pai, festas e romarias, e até livros da Biblioteca Itinerante da F.C. Gulbenkian. Assim a rota de Ceilão perdeu interesse.

Entre 1967 e 1970 nasceram mais três crianças e a preocupação de meu pai era ter uma casa sua para toda a família. trabalhava muito, andava cansado, não havia mais tempo para histórias. Em 1975, a empresa fechou e lançou no desemprego todos os seus trabalhadores. Mas naquele tempo ninguém ligou. Portugal vivia tempos de História e a história destes mineiros não interessava. Cansado o meu pai não aceitou voltar a acompanhar a empresa em mais uma mudança. Aceitou a indemnização, reformou-se por doença e voltou para a sua aldeia. Toda a família protestou. Era uma aldeia pobre sem escola e sem estradas, habitada por mulheres, crianças e velhos e todos os meus irmãos estavam em idade escolar.
Foi convidado para a lista da autarquia que dava os primeiros passos em tempos de Liberdade. Conseguiu a escola, abriu-se a estrada, chegaram os transportes. Esteve sempre disponível e atento aos problemas da sua aldeia e das suas gentes. Os meus irmãos mais novos já não tiveram direito a ouvir as histórias da rota de Ceilão e o álbum castanho apareceu destruído pelos mais pequenos. Sempre pensamos que as fotos também tivessem sido destruídas.
Sempre lúcido, atento e disponível era escutado em todas as decisões da aldeia e sempre lutou por ela, mesmo contra a opinião dos seus filhos que nunca sentiram aquela aldeia como sua. Começaram a aparecer os genros, os netos a novamente a “rota de Ceilão” era história. Macau era para ele um sonho que não compreendíamos ( só após a sua morte o compreendo), mas dizia que não queria voltar, nem mesmo quis visitar o Pavilhão de Macau na Expo 98 quando o convidamos. Com o neto admirou todas as fotos que tiramos.
Quando encontrei as suas fotos e caderneta militar, aceitei o desafio do meu filho em construir uma “história” para oferecer a todos os meus irmãos, mas para isso precisava descobrir porque Macau fora tão importante para ele. Vou-o conseguindo e o “Macau Antigo” tem sido uma surpresa. No Portugal pobre, analfabeto, e fechado do final da guerra, Macau deve ter sido uma magia para ele. Deixou-nos essa magia e uma família com muitos filhos e netos.
Vitalina Matos de Oliveira, Coimbra, Abril/Maio de 2010

NA: a primeira parte destas memórias pode ser consultada neste post
http://macauantigo.blogspot.com/2010/05/memorias-de-vitalina-sobre-o-seu-pai.html

>

Licença de bicicleta passada pelo Leal Senado em 1959 e Certificado de Vacinação
 

>

A Sala de Colecções Raras da Universidade de Macau vai receber um exemplar de “Macau – Coisas da Terra e do Céu”, autografado por Leonel Barros. O autor do livro, que faleceu no início de Fevereiro, era considerado um contador de histórias de Macau e um “filho da terra”. Leonel Barros tem várias obras espalhadas pelo território. “Macau – Coisas da Terra e do Céu” foi publicado em 1999 e debruça-se em aspectos da vivência de Macau, lendas e tradições. Anteriormente detido pela Biblioteca Comendador Joaquim Morais Alves do Instituto Internacional de Macau, o livro vai agora ser entregue à Universidade de Macau, de forma a assinalar a morte deste promotor da cultura do território.Sempre ouvi dizer que as más notícias se espalham a velocidade bem maior que as boas e hoje, com os meios de comunicação disponíveis, é num instante que delas tomamos conhecimento. Vem isto propósito da infausta notícia do falecimento do Leonel Barros figura muito estimada da comunidade macaense com quem, ao longo de anos, partilhei muitos e agradáveis momentos.
Notícia do Hoje Macau de 10-2-2011

A família esteve ligada aos vapores que faziam a ligação entre Macau e Cantão.
‘Neca’ fez muitas viagens ainda adolescente

“Embora nunca tivesse estado em Portugal, evidenciou um grande sentimento de portugalidade e, como há anos tive oportunidade de referir, a simplicidade e a filantropia eram traves mestras da sua postura. Natural de Macau aí se criou tendo, desde muito cedo, manifestado uma invulgar propensão pelo desenho e a música, a que, anos mais tarde, se juntaria o gosto pela criação de animais, prática que fazia com enorme amplitude, pois além de dúzia e meia de cães, fui testemunha que, em casa, chegou a ter cobras que, perigosas ou não, guardava em sacos de pano e às quais ma-nuseava com afagos!

A nossa relação pessoal teve início aí por volta de 1974, quando vivíamos ao lado do demolido Bairro Albano de Oliveira e ele me deu a conhecer interessantes apontamentos sobre ofídios que, desde logo o incentivei a publicar, e vieram a público em 1978. A facilidade com que manuseava o lápis era impressionante e constituía um regalo vê-lo criar as mais diferentes imagens, delas se valendo e bem para ilustrar os textos que redigia. Por diversas vezes tive o privilégio de o ver desenhar, deliciando-me com as peças que com graça e subtileza fazia despontar. Como esquecer o trabalho que executou na sala de refeições do antigo Hotel Bela Vista, em que com pequenos azulejos reproduziu, com grande fidelidade, a Torre de Belém, desde há anos foi classificada como peça portuguesa de Património Mundial? E a sessão de desenho que, certa tarde no Hotel Hyatt proporcionou aos membros do Rotary Club Amagao! Durante os anos em que trabalhei nos SFAM, foi um excelente colaborador que contribuiu para ilustras temas relacionados com a conservação da natureza, a origem de animais e plantas, tem-do-lhe muito a ficado dever as primeiras “Semanas Verdes de Macau” realizadas no início dos anos oitenta. E, é com particular comoção que dele me recordo ao desfolhar o livro de poemas que editei por ocasião dos meus 25 anos de residência permanente em Macau, onde figuram sete desenhos de sua autoria e alusivos aos temas em apreço. 

Era assim Macau (1939) na juventude de Leonel Barros

A música foi outra área em que se moveu com facilidade tendo-se revelado bom executante de diferentes instrumentos como sejam a flauta, viola e bateria. Tal dom e a afabilidade de relacionamento levaram-no a integrar conjuntos musicais, como o “Six Rockers”. Sempre sorridente e bem-disposto, a sua presença era contagiante e, por diversas vezes o vi actuar. Aliás, o Neco como vulgarmente era tratado, constituía presença obrigatória nas peças de autoria doutro grande macaense e amigo que foi José dos Santos Ferreira, vulgo Adé. Em minha casa, onde, de quando em vez, aparecia prendia a atenção das minhas filhas que, encantadas, o ouviam contar histórias locais, valorizadas pela abundância de gestos e a nunca faltavam os efeitos sonoros. Era o que se pode classificar com um entertainer nato. Funcionário do Montepio, entidade de que se aposentou em meados dos anos 70, cultivou, em profundidade e anos a fio, o gosto pelos animais, sendo muito requeridos os valiosos préstimos que, em sua casa, a qualquer hora e fosse a quem fosse, disponibilizava minimizando o sofrimento de animais e sem cobrar tratamentos cujos encargos suportava, chegando ao ponto de ceder medicamentos que adquiria e armazenava numa pequena farmácia. Os animais aprisionados em estreitas gaiolas de rede ou gradeadas a ferro e prontos a ser consumidos em alguns dos restaurantes da Rua da Felicidade tinham nele condoído protector, tendo chegado a conseguir que alguns fossem libertados e salvos. Quanto às peças existentes no Jardim da Flora tiveram nele um dedicado amigo a quem nem as inúmeras mordeduras dos macacos impediram de, com grande frequência, os visitar e tratar. Dotado dum arguto olhar, conseguia aperceber-se do estado dos animais em cativeiro e muitas vezes o vi recomendar determinado medicamento ou a aplicação dum reforço vitamínico. Aí, bem merecia que o seu nome fosse perpetuado junto à fonte ou ao lado do busto de Alfredo Augusto de Almeida ((1898-1971) outro conceituado macaense que se revelou ser profundo conhecedor da flora local. Seria a homenagem da sua terra.

Com uma prodigiosa memória era capaz de descrever cenas ocorridas há dezenas de anos e chamar à colação intervenientes que delas guardavam vaga lembrança ou total esquecimento. Em boa hora a Associação Promotora da Instrução dos Macaenses (APIM) lhe encomendou a redacção de memórias e tradições macaenses, as quais veio a editar em alguns volumes que devem constituir leitura obrigatória para quem tencione conhecer o que foi Macau. Foi pois com imensa tristeza e uma lágrima incontida que soube que falecera. Paz à sua alma.”

Artigo de António Estácio publicado no JTM de 8-2-2011

>

Em Novembro recebi um pedido de uma leitora – a residir na Austrália – sobre o Capitão José Abellard Borges. http://macauantigo.blogspot.com/2010/11/capitao-jose-abellard-borges.html
Na altura consegui providenciar alguma informação. Agora, um outro leitor, Artur de Almeida, comentou os dois post’s sobre o tema. Apesar de estarem desde já publicados, julgo que é oportuno disponibilizá-los aqui num post autónomo. Os meus agradecimento ao Artur de Almeida.
“Gostei imenso desta súmula sobre o Capitão José Abellard Borges mas creio que lhe é devido salientar o facto de ter sido (que eu saiba) o único macaense condecorado com a Ordem de Torre e Espada – por Valor, Lealdade e Mérito – em toda a existência de Macau desde há quase 500 anos da sua História, além de também ter sido condecorado várias vezes com outras condecorações, entre as quais a Ordem Militar de Avis, por diversos bons serviços prestados à Pátria. Numa próxima oportunidade, se houver interesse no assunto, poderei prestar mais informação sobre este macaense ilustre.
(…) Fiquei muito comovido com este pedido da Maria de Fátima porque acabo de descobrir que é também minha prima, simplesmente porque também sou bisneto de José Abellard Borges, filho da Armanda e irmão da Beatriz. A minha mãe já faleceu mas a Beatriz tem apenas 54 anos de idade e está bem viva.
Quanto à minha tia Maria Pacheco Borges, há uma rectificação a fazer : quem escreveu “A Chinesinha” foi a minha tia Maria da Conceição Pacheco Borges (Conchita) e não a irmã Maria de Lourdes Pacheco Borges (Lolly). Ambas e também o tio Albino já faleceram.
Em relação ao nosso bisavô José, é bom saber que está motivada para arranjar a sua campa pois bem merece pois foi um grande e ilustre macaense que foi por diversas vezes condecorado pelo Rei de Portugal (quanto a isso, tenho muitos mais pormenores que poderei depois informar-lhe porque também me interessei pelo assunto e tive acesso aos documentos de então que provam os respectivos factos).
Aguardo com muita expectativa mais notícias suas, minha prima, que já me causou enorme emoção saber da sua existência. Mesmo sem a conhecer, permita-me que lhe dê um forte abraço de uma saudade que já paira no meu ser. Obrigado por este pequeno grande momento de felicidade!
Artur de Almeida

>Ainda ‘em maré’ de reveillon aqui fica o testemunho escrito e fotográfico da festa de passagem de ano no início da década de 1950 em Macau. As palavras e as fotografias são de Reinaldo Amarante, a quem, mais uma vez agradeço, a partilha. Referem-se ao reveillon nas instalações das Piscinas Municipais que foram inauguradas em Junho de 1952 (ver link para outro post)

“A passagem de ano, quando estava em Macau dizia-me pouco; era demasiado novo para ir às festas que se realizavam, um pouco por todo o lado. Em casa, jantávamos cedo, depois, víamos os meus pais aperaltarem-se para o Reveillon. Nós ficávamos entregues à nossa empregada. Com mais ou menos choraminguice, lá os víamos sair, com a promessa de regressarem cedo… Era uma noite como qualquer outra.
Os meus pais, nos últimos anos que passámos em Macau, costumavam fazer a Passagem do Ano na Piscina de Macau, onde, pelos vistos, a festa era de arromba, pelas muitas fotografias que tenho. Nelas, aparecem, além dos meus Pais, os meus Tios e alguns Amigos que não identifico. Em tempos mais recuados, o Reveillon era na casa dos meus Avós cujas festas ficaram documentadas em fotografias, mas não consigo distinguir as de Passagem de Ano das outras.”

Numa das primeiras fotos pode ler-se no cartaz: “Chá dançante nos dias 1 e 2; funciona das 17 até às 19h30; Bebidas: água, chá, café ou gasosa desde 1 pataca”

Informações adicionais sobre as piscinas neste post http://macauantigo.blogspot.com/2009/03/piscinas-municipais.html

Página seguinte »