patuá


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Non têm cristám qui non sabe
Quim sã Luís di Camões.
Non têm posia más suávi
Qui posia di Camões.
Camões sã unga letrado
Bêm capaz di Portugal;
Naçám já ficá falado,
Di sala atê quintal.

Camões, “Príncipe di Péta”,
Diverá sã grándi hóme.
Su ôlo já cai na Cêta,
Ele sã já passá fome.

Quelóra vai Portugal,
Camões já ficá cholido;
Buli co corte rial,
Na grádi ficá capido.

“Lusíadas” sã su glória,
Sã honra di nôs cristám.
Ali têm tánto estória,
Di nôs-sua grándi naçám!
Índia Camões já vai
Macau, cavá virá vêm.
Na grádi torná já cai,
Tánto consumiçám têm.

Na Goa buli co guéra,
Na Macau posia fazê.
Cavá torná vai su tera,
Más trabalo já sofrê.

Poema da autoria de José dos Santos Ferreira (Adé), de 1967 e publicado no livro do P. Manuel Teixeira “A Gruta de Camões em Macau” editado em 1999 pela Fundação Macau e Instituto Internacional de Macau.

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Os membros da comunidade macaense ligados a famílias mais antigas hão-de lembrar-se das adivinhas populares que entravam, naturalmente, nas conversas “maquistas” dos nossos avós. Ainda muito miúdo, deleitava-me a ouvir a avó Paquita “papiar” com as amigas no casarão do Tap-Siac ou em casa da “tia” Bernardete, na Rua do Campo. Nesses círculos entravam poucos homens, entre os quais o Olímpio, filho da Bernardete, todos animados conversadores. As horas de ócio eram abundantes, estimulando aquelas amenas cavaqueiras, de que faziam parte adivinhas cheias de “chiste”, produzidas num contexto predominantemente lúdico. Danilo Barreiros, no seu estudo sobre o dialecto português de Macau, deu-se ao trabalho de reunir algumas dezenas dessas adivinhas, publicando-as, em 1943 e 1944, na revista Renascimento (n.º 6 do volume III e n.º 1 do volume IV), de que foi empenhado redactor desde o seu lançamento. Graciete Batalha e Ana Maria Amaro também contribuíram para a sua divulgação. Numa altura em que se fazem louváveis esforços para a valorização da “lingu maquista”, pareceu-me oportuno trazer para este espaço uma selecção dessas adivinhas, cuja grafia então usada também se respeita:

1 Filo dale mãi
Mãi berá.
Sã cuza? Sã: sino

2 Mãi dale filo
Filo dale mãi.
Sã cuza? Sã: pilão

3 Eu cô vôs,
Vôs cô eu,
Bulí, bulí
Chuchú na mêo.
Sã cuza? Sã: tranca

4 B – A – ba, primero letra
L – I – li, divinhaçan;
Quim querê sabê minha nome
Botá ôlo na chan.
Sã cuza? Sã: balichan (balichão)

5 Ung-a lorcha
Tem cinco atai tá rémá
Sã cuza? Sã: pê cô sapatu
(pé com sapato)

6 Eu nacê
Minha mãi morê.
Se non quêro crê
Preguntá cô minha tia.
Sã cuza? Sã: figuéra (bananeira)

7 Cêo riva,
Cêo basso,
agu na mêo.
Sã cuza? Sã: coco

8 Compadre vai,
Compadre vem.
Sã cuza? Sã: onda
9 Ung-a ancusa
Cabeludo,
Abri perna
Metê tudo.
Sã cuza? Sã: meia

10 Ung-a vêlo muito vêlo
Tem tanto barba;
Tudo dia cêdo cêdo sai fóra
Passiá tudo casa casa,
E vai escondê na canto canto
Sã cuza? Sã: vassôra (vassoura)

11 Nicotico
Tem pê
Tem bico.
Filo de Nicotico
Non tem pê,
Non tem bico.
Sã cuza? Sã: galinha e ôvo
(galinha e ovo)

12 Ung-a nhame
Tem sete buraco.
Sã cuza? Sã: cara

13 Eu nacê pra ficá princeza,
Cô corôa de imperatriz;
Ladrão rubá tambén pra mi,
Já rubá tambén minha rubin.
Sã cuza? Sã: romã

14 Metê seco,
Tirá mulado,
Branco, grosso
E pendurado.
Sã cuza? Sã: macaran (macarrão)

15 Quim fazê nada lográ
Quim lográ non pôde olá,
Quim olá lôgo churá.
Sã cuza? Sã: sepultura

16 Ung-a ezercito
de 56 soldado
e 6 capitão,
cô ung-a bandéra de cristão.
Sã cuza? Sã: rosário

Mais adivinhas poderão ser divulgadas neste espaço. Peço a quem as tenha, herdadas dos avós, que mas faculte, dado o interesse na compilação de mais textos como estes do nosso patuá.
Artigo da autoria de Jorge A. H. Rangel, presidente do Instituto Internacional de Macau, publicado no JTM de 07-6-2011

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Com as comemorações do novo ano lunar quase a terminar e relembrando a iniciativa que ontem teve lugar no Centro de Documentação da Fundação Casa de Macau, em Lisboa. Adé, o “senhor patuá” foi o ‘convidado’ de honra numa tertúlia singela mais genuína e bastante participada.
Para além dos livros, Adé deixou-nos ainda algumas gravações dos seus poemas declamados. Como esta edição da Tradisom de 1998.
Aqui no “Macau Antigo” são vários os post’s sobre a sua vida e obra.
O Patuá macaense, também designado por Crioulo macaense, Patuá di Macau, Papia Cristam di Macau, Doci Papiaçam di Macau ou ainda de Macaista Chapado, é uma língua/dialecto crioula de base portuguesa formada em Macau a partir do século XVI, influenciada pelas línguas chinesas, malaias e cingalesas. Sofre também de alguma influência do inglês, do tailandês, do espanhol e de algumas línguas indianas. O assunto é completo e para especialistas. Esta foi a explicação mais simples que consegui.
Pelo patuá fizeram, e muito, outros nomes da terra como Jorge Roberts ou Tarcísio da Luz. Actualmente diversas associações locais buscam o reconhecimento por parte da Unesco para que o patuá seja considerado património intangível da humanidade. Mesmo que não venha a ser o seu trabalho foi de extrema utilidade de forma a evitar que se perdesse para sempre uma das maiores marcas da identidade cultural macaense.
Aqui fica mais um texto (1983) do Adé… “Poéma di Macau”
Pa vôs, Macau quirido, pequinino,
Nésga di chám pa Dios abençoado,
Macau cristám, qui fórça di destino
Já botá na caminho alumiado;
Pa vês, iou pensá vêm co devoçám,
Rabiscá unga poema di amôr,
Enfeitado co vôs no coraçám,
Pa têm mercê di bénça di Sinhôr.
Tera qui nôsse Rê chomá lial,
Sômente unga: sã vôs, bunitéza,
Filo di coraçám di Portugal,
Alma puro inchido di beléza.
Iou querê vêm contá co sentimento,
Vôsso estória pa mundo uvi!
— Qui di péna fino? Qui di talento?
Ai, qui saiám Camões nom-têm aqui!
Para ti, Macau querida, pequenina,
Nesga de terra por Deus abençoada
Macau cristão, que a mão do destino
Colocou no caminho iluminado;
Para ti, pensei vir com devoção,
Compor um poema de amor,
Contigo enfeitado no coração,
E assim merecer a bênção do Senhor.
Terra que um nosso Rei chamou leal,
Só uma: és tu, graciosa
Filha do coração de Portugal,
Alma cândida, impregnada de beleza;
Quero vir contar com sentimento,
A toda o mundo a tua história!
Ah, que pena não estar aqui Camões.

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Depois de 14 edições, Macau foi o destino escolhido para receber em Abril os próximos “Colóquios da Lusofonia”, com a participação de cerca de 50 académicos e estudiosos da Língua Portuguesa. A edição realiza-se de 11 a 15 de Abril no Instituto Politécnico de Macau e conta com uma homenagem especial a Henrique de Senna Fernandes e um roteiro turístico que irá revisitar a Macau dos livros do escritor macaense.

De acordo com o jornal Hoje Macau de 21-2-2011, a Associação dos Colóquios da Lusofonia (AICL) tenciona criar em Macau um centro de estudos permanente sobre o “dóci papiaçam”. Chrys Chrystello, presidente da instituição sem fins lucrativos,
espera concretizar a ideia – que já tem alguns anos – a seguir aos “Colóquios da Lusofonia”. Mas, para tal, ainda é preciso que o encontro no território decorra na perfeição. “Se tudo correr bem, iremos avançar para o centro. Vai depender, sobretudo, dos resultados dos Colóquios e da abertura e do apoio de Macau para tal”, explicou.
Chrys Chrystello viveu quase duas décadas em Macau, aprendeu patuá e pratica-o agora em casa, nos Açores. “Sei contudo que é um dialecto em vias de extinção. Se nada for feito a curto prazo, o patuá estará em extinção”, justificou. O académico acredita que a forte imigração dos macaenses para os Estados Unidos, a Austrália e o Brasil também tem contribuído para o desaparecimento da língua. “Os macaenses que partiram estão a perder as suas características de macaenses. O patuá é um dialecto condenado à extinção. Mas acredito ainda ser possível recuperá-lo e evitar que morra com as gerações que ainda o falam.”

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“Pa quim lê nosso papiaçam, Nôs vem falá: «Kung Hei Fat Choi”

5 de Março, pelas 16 horas, tertúlia no Centro de Documentação Fundação Casa de Macau

Praça do Príncipe Real, nº 25 – 1º, Lisboa

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Na edição de 8 de Fevereiro 2011 o jornalista do “The New York Times” Andrew Jacobs assina uma grande reportagem intitulada “Misturas distintas persistem numa esquina da China” sobre a cultura macaense. http://www.nytimes.com/2011/02/08/world/asia/08macao.html?_r=2 
No JTM foi publicado um artigo que traduz a essência da reportagem e que a seguir se reproduz agradecendo mais uma vez aos autores e ao JTM.
Andrew Jacobs inicia a sua reportagem sobre Macau com uma referência ao multiculturalismo do território, que, aponta, é evidenciado pela cultura macaense. “Há muito tempo termos como ‘multiculturalismo’ e ‘cozinha de fusão’ entraram no léxico moderno. Aida de Jesus e os seus antepassados foram misturando linguagem, alimentos, e o ADN por distantes cantos do globo”, escreveu o jornalista, introduzindo assim a sua conversa com a macaense Aida.
E prossegue: “uma ‘chef’ de 95 anos, cuja ancestralidade é traçada a partir de Goa, Malaca e outros pontos do antigo Império português, Senhora de Jesus, como ela prefere ser chamada, cresceu a celebrar o Natal e o Ano Novo Chinês, com refeições baseadas em chouriço português, ‘bok choy’ e galinha cafreal, – um prato de frango com um ‘pedigree’ africano. Senhora de Jesus falava português na escola, cantonense na rua e um crioulo animado conhecido como patuá com ‘as meninas’”.
“Nós, macaenses estamos sempre a misturar”, disse Senhora de Jesus (…) “Somos muito adaptados”.
“Mas actualmente os macaenses estão a nadar contra a maré demográfica que ameaça submergir o seu ‘cocktail’ cultural”, observou o jornalista. “Sempre superados em número pelos imigrantes chineses e comerciantes portugueses, que lotaram esta mancha densamente povoada do Delta do Rio das Pérolas, os macaenses, que ficaram no território após a criação da RAEM 1999, são certamente uma minoria. Menos de 10 mil macaenses residem em Macau, por contraste, a população é de 500 mil habitantes, sendo de cerca de 95 por cento chineses, taxa que continua a subir”, acrescentou.
Photo: Thomas Lee for the International Herald Tribune
Aida de Jesus worked on recipes as her daughter Sonia Palmer had a sausage sandwich at the family-owned Riquexo Cafe and Restaurant.
“Há provavelmente mais macaenses a viver na Califórnia e no Canadá do que em Macau”, apontou Miguel de Senna Fernandes, advogado e escritor, “cujo pai narrou a vida de macaenses comuns numa série de romances”. “Agora que somos parte da China, estamos diante de uma força muito poderosa e absorvente”.
“Mas isso não faz Miguel Senna Fernandes desistir”, sublinhou o jornalista. “Além da organização de eventos sociais, através da Associação dos Macaenses, Miguel também surge como o D. Quixote do patuá, que está listado pela Unesco como uma língua em extinção. O escritor ajudou a publicar um dicionário de expressões em patuá, e nos últimos 18 anos encenou uma peça de teatro anualmente que faz reviver o que os locais chamam de “Dóci Papiaçam”, isto é, fala doce”.
“Miguel de Senna Fernandes, identifica vestígios do seu fascínio pelo patuá na convivência com a sua avó, que falava o crioulo com os amigos durante o ‘chá gordo’ (…) Como frequentemente as expressões eram impróprias para os ouvidos de um miúdo de oito anos, a avó de Miguel traduzia-lhe as expressões de forma mais suave, seguindo-se uma repreensão para que continuasse a estudar o português correcto”, relatou Andrew Jacobs.
“Os antigos consideravam que o patuá era mau português, mas desde essa altura que estou viciado”, explicou, na reportagem, Miguel Senna Fernandes.
Andrew Jacobs refere ainda que “o patuá está entre os últimos dos crioulos que uma vez floresceram na constelação dos portos que compõem as explorações portuguesas na Ásia e em África”.
“Ao contrário de colonizadores britânicos, que mantiveram uma certa distância de seus súbditos em Hong Kong, – território que fica apenas a uma hora de viagem de ferry de Macau -, os portugueses casavam-se frequentemente com mulheres locais, que depois se convertiam ao catolicismo”.
Alan Baxter, linguista da Universidade de Macau e um especialista em crioulos baseados no português, explicou ao jornalista “que as raízes do patuá remontam ao século XVI, quando os comerciantes portugueses e seus seguidores faziam negócios com os africanos, indianos e malaios, tendo, em seguida, rumado para as outras colónias do império”.
“Imagine que estava num lugar novo, privado dos conhecimentos da língua local e que conseguia apenas apanhar os pedaços úteis para se conseguir alimentar”, enfatizou o linguista, explicando a evolução do crioulo.
“As contribuições do cantonense para o patuá vieram muito mais tarde, a partir do final do século XIX, após as muralhas que separavam os bairros portugueses dos bairros chineses terem sido derrubadas e os dois grupos terem começado a misturar-se”, indica o jornalista, usando as palavras de Baxter.
Posto isto, Andrew Jacobs “brinca” ele próprio com o crioulo, dizendo que “hoje em dia os macaenses dão a sua roupa suja a um ‘mainato’ – palavra derivada do malaio – e chamam às pessoas que lhe são queridas de ‘amo chai’, – uma mistura da palavra portuguesa amor e da expressão cantonense que significa pequeno”. “Os verbos não se conjugam, os nomes são repetidos para sugerir o plural e as palavras são, por vezes, colocadas de uma maneira que imita a estrutura clássica dos idiomas chineses”, adicionou.
“No início, esta forma de linguagem serviu bem os macaenses, promovendo o seu papel de ponte entre os governantes portugueses e os habitantes de Macau, predominantemente chineses. Depois, quando os macaenses começaram a enviar os seus filhos para as escolas portuguesas, tornaram-se indispensáveis como gerentes e burocratas. Mais recentemente, quando a China assumiu a administração do enclave depois de mais de 400 anos de domínio português, os macaenses dominaram o funcionalismo público do território”.
Antes de entrar no capítulo dos casinos, Andrew Jacobs realça a magia da zona mais antiga do território. “Embora a maioria dos visitantes hoje em dia seja rapidamente sugada para os casinos – entre os quais está o Venetian, um dos maiores do mundo – aqueles que percorrem as ruas de calçada estreita são facilmente atingidos pela coexistência do Oriente e do Ocidente. Templos budistas impregnados de incenso, igrejas barrocas, pastelarias portuguesas, mercearias de venda de barbatanas secas de tubarão estão amontoados sem descontentamento”.
Segundo escreve, “esse mesmo entrelaçamento é evidente na vida dos macaenses muitos dos quais consagrados católicos, mas que dão aos seus filhos pequenos envelopes vermelhos com dinheiro no Ano Novo Lunar. Por altura do Festival do Meio Outono, – um outro feriado chinês -, vão para as ruas transportando lanternas em forma de coelho”.
“Muitos de nós fomos educados na Europa, mas nenhum macaense ousaria mudar de casa sem consultar primeiro um especialista em feng shui”, explicou, na reportagem, Carlos Marreiros, arquitecto que desenhou o Pavilhão de Macau na Expo Xangai 2010. “Sou cristão, mas eu também acredito que Deus é um grande oceano e que todos os rios de religião correm para o encontrar”.
Andrew Jacobs continua: “nos anos que antecederam a criação da RAEM, milhares de macaenses apreensivos partiram, com muitos a instalarem-se em Portugal. Mas, ao longo da última década, Pequim tem-se mantido fiel à sua promessa de dar a Macau 50 anos de autonomia relativa, pelo que a emigração tem abrandado e um pequeno número, mas constante, tem regressado”.
“Uma atracção irresistível tem sido o crescimento económico desenfreado, estimulado principalmente pela Indústria do Jogo, que no ano passado ajudou a impulsionar o crescimento de 20 por cento da economia. Com os casinos abastecidos pelos jogadores do Continente, as receitas do Jogo de Macau estão agora a quadruplicar aquelas verificadas na Strip de Las Vegas. O impacto sobre a população local tem sido irregular. Uma lei que proíbe os não residentes de trabalhar como ‘croupiers’ e ‘dealers’ ajudou a proporcionar empregos bem remunerados aos residentes, mas o crescimento do sector drenou, inesperadamente, as escolas de professores. Tem sido também uma atracção irresistível para os jovens, estando um número crescente a abandonar a escola ou a rejeitar uma ida para a universidade para ir directamente trabalhar para os casinos”.
“Tanta prosperidade trouxe também outras desvantagens: a especulação imobiliária desenfreada que está a deixar a população local de fora do mercado de habitação. A Macau ensonada que provoca saudosismo a muitos, está cada vez mais submergida pela buzina e ritmos maníacos, que geralmente estão associados a Hong Kong”, observou o jornalista do NYT.
“Está tudo a acontecer de forma muito rápida: a construção é rápida, o negócio é fácil e todos estão mais stressados”, disse, por sua vez, José Sales Marques, último presidente do Leal Senado, que agora trabalha para promover melhores relações entre Macau e a Europa. “A prosperidade é maravilhosa, mas no final do dia todo o dinheiro não pode comprar uma cultura e uma identidade”.
No final do texto, Andrew Jacobs mostra ainda como a música pode perpetuar uma cultura: “Filomeno Jorge está determinado a manter viva uma vertente dessa identidade. Todas as quartas-feiras, ele agita os outros sete membros da sua banda, Tuna Macaense, a tocar um repertório diversificado que inclui, surpreendentemente, fados portugueses, baladas cantonenses e canções pop filipinas. Os pilares são, contudo, as músicas ‘vintage’ em patuá, algumas datadas de 1935, altura em que o grupo foi fundado por José dos Santos Ferreira, poeta e letrista creditado por trazer legitimidade cultural ao dialecto macaense. A Tuna Macaense chegou a ter ao mesmo tempo três dezenas de membros, tendo ficado conhecida por fazer actuações sem aviso prévio em casamentos e festas de aniversário”. (…)
“Apesar da Tuna Macaense ser abençoada com espectáculos frequentes, o Filomeno Jorge, está cada vez mais preocupado com a procura de sangue novo para a banda, uma busca até agora sem êxito”. “Todos nós temos mais de 50 anos. Depois de morrermos, a nossa música vai morrer, e eu não posso deixar isso acontecer”, disse Sr. Jorge a Andrew Jacobs, que termina a reportagem com esta afirmação.

Artigo da autoria de O.P. publicado no JTM de 9-2-2011

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Uma tese de doutoramento sobre o patuá, que será apresentada nos próximos dias, envolveu trabalho de campo em Vancouver e São Francisco, onde reside o maior grupo de falantes. Muitos deles são idosos e a UM quer documentar o seu legado.
Existem casais de idosos que, no seu dia a dia, comunicam entre si em patuá. Mas não estão em Macau. Mário Pinharanda foi encontrá-los entre a vasta diáspora macaense radicada nas cidades de São Francisco e Vancouver. O investigador da Universidade de Macau (UM), que irá defender uma tese de doutoramento sobre o patuá nos próximos dias, esteve naquelas cidades do continente americano, onde recolheu dados sobre o maquista, tendo efectuado gravações com pessoas que o falam fluentemente.
A recolha sócio-linguística faz parte da pesquisa realizada no âmbito da tese de doutoramento daquele investigador, que se intitula “Estudo da expressão morfo-sintáctica das categorias de tempo, modo e aspecto em maquista”. A tese aborda as variações nas formas de falar crioulo macaense ao longo dos tempos, incluindo uma comparação com o kristang, de Malaca.
Os registos recolhidos deverão “funcionar como base de dados para futuras pesquisas e também para a comunidade em si”, segundo explica Pinharanda. As gravações foram captadas apenas em áudio, mas o áudio-visual deverá ser o momento seguinte da investigação. A documentação imagética torna-se mais pertinente dada a idade da população em causa: “Temos que ser rápidos, eu trabalhei com pessoas na faixa dos oitenta, noventa anos. Na véspera de eu chegar a Vancouver tinha falecido um informante com 107 anos, eu ia muito entusiasmado para o conhecer”, comenta o investigador, que está radicado em Macau desde 1997.
Os macaenses que Mário Pinharanda foi encontrar no Canadá e nos Estados Unidos são, sobretudo, provenientes da comunidade de Hong Kong. Trata-se de pessoas que saíram de Hong Kong nos anos sessenta e que já estão na América há cerca 40 anos. Apesar disso — ou talvez por causa disso – mantêm o patuá em contexto familiar, de uma forma bastante viva. Os dados recolhidos junto das Casas de Macau indicam que a maior comunidade de macaenses residirá na baía de São Francisco.
Com o andar do tempo, torna-se prioritário registar a herança destes macaenses, constituída por elementos como diários, livros de receitas e cartas. Mas, para isso, será necessário que os estudiosos tenham a possibilidade de passar mais tempo entra a comunidade, argumenta Pinharanda: “É preciso a pessoa ter um contacto prolongado com a comunidade, que não foi o caso, eu fui por uma semana, o projecto era assim e não permitia mais. Futuros investigadores têm que ter um projecto que lhes permita uma maior permanência. Até porque as pessoas não vão, de um dia para o outro, disponibilizar as cartas pessoais e coisas assim. Mas era fantástico que as várias comunidades começassem a pensar no sentido do legado, para quem cá fique”.
Os falantes de patuá pertencem a uma “geração bastante mais velha”, sendo que os filhos dessa geração “já pouco falam”, caracteriza o investigador: “Nas entrevistas que lhes fiz iam sempre ‘bater’ nessa questão da perda da língua e das tradições. Por outro lado, achei, estando inserido no contexto norte-americano – onde há tantos grupos minoritários linguísticos e onde há um grande incentivo para manter associações – que há uma camada jovem de macaenses, já nascida lá, e que é muito activa nas associações.”
BOLSAS PARA MALACA. Alan Baxter reconhece que há falantes de patuá, mas que estes não estão em Macau. “Com plenas funções linguísticas, aqui em Macau há cinco pessoas. Há depois muitas outras pessoas que sabem alguma coisa e que conseguem comunicar. Onde há falantes funcionais em maior número é em São Francisco e Vancouver”, revela o director do Departamento de Português da UM.
Com o patuá “à beira da extinção”, Alan Baxter considera que o que lhe acontecerá “vai depender da comunidade, dado que os especialistas podem dar conselhos, mas a própria comunidade fará o que bem quiser com a sua língua”. O responsável valoriza a iniciativa de conseguir a classificação por parte da Unesco do maquista como património imaterial da humanidade: “Acho interessante e poderia fornecer os meios para dar alguma continuidade simbólica ao patuá. O patuá não será reactivado como uma língua com funções plenas, mas pode ser reactivado no sentido simbólico, com mais presença, mais participação por parte dos jovens. Se entre os jovens houvesse um interesse para falar fluentemente o patuá, a sugestão que venho propondo há quase dois anos é que poderíamos criar umas bolsas e mandar alguns jovens a Malaca por uns meses. No regresso, faríamos ajustes no sotaque e no léxico e teríamos alguns falantes do patuá”.
A última ligação do “Ethnologe” lista 6909 línguas, mas há estimativas que apontam para que subsistam cerca de metade no início do próximo século. Baxter argumenta que a comunidade macaense continua a “gostar do teatro e de celebrar a sua cultura, sendo o patuá é parte da cultura local” e não considera, portanto, que seja inevitável a extinção do idioma. Embora seja difícil que venha a ter outro destino: “No século XXI, é cada vez mais inevitável [essa extinção], mas as minorias podem manter as suas línguas e podem utilizar outras línguas para o funcionamento sócio-económico. É uma questão de vontade, mas a língua precisa de funções e a comunidade tem que compreender como é que funcionam os factores condicionantes que vão afectar negativamente a língua, ou de maneira positiva, para aproveitar os efeitos positivos. A língua minoritária não tem de desaparecer, há muitos exemplos no mundo de línguas minoritárias bem conservadas em situações multilingues,” analisa o académico australiano.
Artigo da autoria de Paulo Barbosa publicado no Jornal Tribuna de Macau a 18-10-2010